Da remota e resiliente ilha de Bougainville, localizada no leste da Papua-Nova Guiné, surge uma das mais potentes manifestações de resistência musical do sul global: a banda Darkaside. Unindo o peso do nu metal à memória de um conflito devastador, o grupo transforma traumas coletivos em denúncia sonora e identidade cultural em instrumento de luta.
Formado por Joshua Mayum (vocal), Cyril Mayum (guitarra solo), Wayne Maito (guitarra base), Elenas Serok Jnr (baixo) e Kenneth Imako (bateria), o quinteto nasceu como resposta direta às marcas deixadas pela Bougainville Crisis — uma guerra civil brutal que, entre 1988 e 1998, provocou mais de 20 mil mortes, deslocou milhares de pessoas e escancarou os danos sociais e ambientais causados pela exploração mineral da mina de cobre de Panguna, então operada pela multinacional australiana Rio Tinto.
“Nossos avós morreram por essa terra. Nós não esquecemos. Tocamos para lembrar e resistir.” – — Cyril Mayum, guitarrista da Darkaside
A guerra por cobre e autonomia
O conflito eclodiu quando comunidades locais, marginalizadas e afetadas pela degradação ambiental, se rebelaram contra a presença da mineradora estrangeira, exigindo compensações, soberania e controle sobre seus recursos naturais. O levante liderado pelo Exército Revolucionário de Bougainville (BRA) enfrentou as forças do governo central da Papua-Nova Guiné, resultando em um bloqueio militar e uma década de violência.
Bougainville: O preço do cobre, a ferida da guerra e a luta de um povo insular
A paz só veio com o Acordo de Bougainville (2001), que concedeu ampla autonomia ao território e previu um referendo de independência, realizado em 2019 — onde 97,7% da população votou pela separação. Embora o processo ainda esteja em curso diplomático, o espírito de independência pulsa no cotidiano — e nas letras da Darkaside.
Som autoral, herança ancestral
A Darkaside se distingue na cena do metal não apenas por sua origem geográfica, mas por sua proposta estética. Suas composições cruzam nu metal, alternative metal e groove thrash, mas carregam uma alma local. Os tambores kundu, usados em rituais ancestrais, e as flautas de bambu, típicas das celebrações tradicionais, são integrados à estrutura musical, criando uma sonoridade que respeita o passado e projeta o futuro.
As letras, ora cantadas em inglês, ora em tok pisin (língua crioula falada na Papua-Nova Guiné) e outros idiomas regionais, tratam de temas como reconhecimento histórico, descolonização cultural, violência de Estado, trauma geracional e orgulho indígena.
“Decade of Crisis”: um clamor visual e sonoro
O primeiro single oficial da banda, “Decade of Crisis”, lançado em 2025, marca um divisor de águas. A música, acompanhada de um videoclipe filmado em Kieta, Kongara e nas ruínas da mina de Panguna, tem forte carga simbólica. Com produção da GL Productions e direção da Kongara Productions, o clipe intercala cenas de resistência armada com imagens de rituais tradicionais, cruzando passado e presente.
A obra foi destacada por sites internacionais de protest music, como The Ongoing History of Protest Music (Canadá) e Toilet Ov Hell (EUA), sendo descrita como “uma das mais autênticas expressões de luta indígena na música extrema contemporânea”.
Um coletivo musical com impacto social
Para além do palco, a Darkaside atua como agente cultural e educacional. Em parceria com coletivos de juventude e ONGs locais, a banda organiza workshops sobre história de Bougainville, produção musical e direitos culturais, utilizando a música como ferramenta de mobilização e cura coletiva.
Segundo Joshua Mayum, o grupo pretende, ainda em 2025, lançar um EP completo, intitulado Echoes of Panguna, abordando a reconstrução do território, o papel das mulheres na resistência e a juventude pós-guerra. A banda também planeja circular por festivais regionais na Papua-Nova Guiné, Ilhas Salomão e Fiji, com o objetivo de consolidar a cena metal no Pacífico.
____________________
Letra “Decade of Crisis”
Obs.: algumas linhas em Tok Pisin/idiomas locais são difíceis de traduzir com total certeza; quando for o caso, eu traduzo pelo sentido mais provável.
Kirapim olgeta Mahn na Meri
→ Levantem todos os homens e as mulheres
Ol mahn e wok lo dai e stap
→ Os homens continuam trabalhando até morrer / os homens seguem morrendo em serviço
Still ba mi tingim
→ Mesmo assim eu ainda me lembro
Ba mi nonap larim
→ Mas eu não vou deixar
Ba me nonap lusim
→ Mas eu não vou abandonar / não vou largar
Displa mama graun
→ Esta terra-mãe
This shit has left me with nothing but I stand knowing that I fought for something
→ Essa merda me deixou sem nada, mas eu fico de pé sabendo que lutei por alguma coisa
You saw it on the news my people died and abused just because we refused and wouldn’t give in
→ Você viu no noticiário: meu povo morreu e foi abusado só porque a gente recusou e não cedeu
Now who has the Say of who gets Autonomy
→ Agora, quem é que decide quem recebe autonomia?
It’s just another way to build their economy
→ É só mais um jeito de construir a economia deles
No
→ Não
And still the dead they cry out injustice and yet the wicked rule and still try to take this
→ E ainda assim os mortos gritam por justiça, mas os perversos governam e ainda tentam tomar isto
System of Greed and try to bury it into the ground
→ Este sistema de ganância e tentam enterrá-lo no chão
I’ve seen it everyday I’ve seen it every single day
→ Eu vi isso todo dia, eu vi isso todos os dias
This fight ain’t over until this lands are left alone
→ Essa luta não acaba até que estas terras sejam deixadas em paz
They’ve taken everything they’ve taken everything away
→ Eles tiraram tudo, levaram tudo embora
Somethings will never be changed unless everything can be justified because a Decade of Crisis is still – is still Killing me inside
→ Algumas coisas nunca vão mudar a menos que tudo possa ser justificado, porque uma Década de Crise ainda — ainda está me matando por dentro
Killing me inside
→ Me matando por dentro
1988
→ 1988
Decade of Crisis a Decade of Hate
→ Década de crise, década de ódio
Decade of mother f*cking a decade of waste
→ Uma década do caralho, uma década de desperdício
My skin is Black and there’s blood on my face
→ Minha pele é preta e tem sangue no meu rosto
No love for this Land
→ Nenhum amor por esta terra
See red blood and I Hate
→ Eu vejo sangue vermelho e eu odeio
Wait
→ Espera
I see the sons in the far east trynna motivate, taking control of their minds and trynna educate the lost line, the dumb, blind to activate
→ Eu vejo os filhos lá no extremo leste tentando motivar, tomando controle das próprias mentes e tentando educar a linha perdida, os tolos, os cegos, pra despertar
Time is upon us all mangi Kawas Eliminate this
→ O tempo chegou pra todos nós, meu povo/irmãos — vamos eliminar isto
(“mangi” costuma ser “rapaz/irmão” no Tok Pisin; “Kawas” pode ser nome/termo local — traduzi pelo sentido provável.)
System of Greed and try to bury it into the ground
→ Este sistema de ganância e tentam enterrá-lo no chão
I’ve seen it everyday I’ve seen it every single day
→ Eu vi isso todo dia, eu vi isso todos os dias
This fight ain’t over until this lands are left alone
→ Essa luta não acaba até que estas terras sejam deixadas em paz
They’ve taken everything they’ve taken everything away
→ Eles tiraram tudo, levaram tudo embora
Somethings will never be changed unless everything can be justified because a Decade of Crisis is still
→ Algumas coisas nunca vão mudar a menos que tudo possa ser justificado, porque uma Década de Crise ainda
Is still Killing me inside
→ Ainda está me matando por dentro
Come undone
→ Desmorona / vem abaixo
We had enough
→ A gente já teve o bastante
You can’t stop it now, you won’t stop what’s coming
→ Você não pode parar isso agora, você não vai parar o que está vindo
Forgiven to remember from all that we lost
→ Perdoados para lembrar de tudo o que perdemos
Petrified to forget – to forget
→ Apavorados de esquecer — de esquecer
This System of Greed keeps on bringing us to the ground
→ Este sistema de ganância continua nos derrubando
There’s nothing more to give there’s nothing more to say
→ Não há mais nada pra dar, não há mais nada pra dizer
This fight ain’t over until this lands are left alone
→ Essa luta não acaba até que estas terras sejam deixadas em paz
They’ve taken everything they’ve taken everything away
→ Eles tiraram tudo, levaram tudo embora
Somethings will never be changed unless everything can be justified
→ Algumas coisas nunca vão mudar a menos que tudo possa ser justificado
This is my Sacrifice because a Decade of Crisis is still
→ Este é o meu sacrifício porque uma Década de Crise ainda
Is still Killing me inside
→ Ainda está me matando por dentro
Killing me inside
→ Me matando por dentro
____________________
Presença digital e identidade visual
A Darkaside mantém um perfil ativo nas redes sociais, utilizando as plataformas para compartilhar bastidores, trechos inéditos, entrevistas com sobreviventes da guerra, além de merchandising com símbolos tradicionais, como o rosto estilizado de Francis Ona (líder revolucionário de Bougainville).
- YouTube: Canal DarkAsidE Band
- TikTok e Threads: @darkaside.band.of
“A grafia com um ‘a’ extra não é um erro. É um lembrete de que estamos do lado sombrio da história oficial — mas seguimos gritando.” – — Kenneth Imako, baterista
Por que importa?
Bougainville, apesar de suas belezas naturais e riquezas minerais, ainda enfrenta os legados da guerra: infraestrutura precária, ausência de justiça para vítimas e ausência de reconhecimento internacional pleno. A arte da Darkaside, portanto, não é entretenimento — é registro histórico, ferramenta pedagógica e ato político.
Cada acorde pesado é um lamento ancestral. Cada refrão explosivo, um chamado por reparação. A Darkaside é o som de uma ilha que se recusa a ser silenciada.
Para ouvir, apoiar e compartilhar.
Leia também
| Projeto Comunicando ComCausa
| Portal C3 | Instagram C3 Oficial
______________
Compartilhe:
