Com o aumento da presença digital de crianças e adolescentes, os crimes sexuais praticados na internet se tornaram uma grave ameaça silenciosa. Casos de grooming (aliciamento virtual), sextorsão, pornografia infantil e chantagens emocionais e sexuais estão em crescimento no Brasil, segundo dados da Polícia Federal.
Para combater esse cenário, uma nova campanha da ComCausa tem como foco educar e alertar famílias, escolas e comunidades sobre como identificar sinais de que crianças ou adolescentes podem estar sendo vítimas desse tipo de crime.
“Não é só sobre tecnologia, é sobre cuidado, confiança e presença. Precisamos estar perto, mesmo quando eles estão online”, afirma Adriano Dias, da ComCausa.
De janeiro de 2022 a março de 2025, a Polícia Federal registrou mais de 2.200 operações contra crimes cibernéticos sexuais, com 326 prisões e 113 vítimas resgatadas. O Disque 100 também aponta aumento expressivo de denúncias envolvendo menores.
Sinais de que algo está errado — e como interpretar:
1. Mudanças bruscas de comportamento
A vítima pode apresentar isolamento, irritabilidade, tristeza excessiva ou explosões de raiva sem motivo aparente. Isso pode refletir medo, culpa ou estresse emocional causado pelo agressor ou pelo conteúdo compartilhado.
2. Isolamento social e evasão de atividades habituais
Afastamento de amigos, recusa em ir à escola, evitar familiares ou parar de frequentar atividades que antes gostava. Isso pode indicar vergonha, medo de julgamento ou tentativa de esconder o que está acontecendo.
3. Recusa ou medo de usar aparelhos eletrônicos
A criança pode demonstrar ansiedade ao usar o celular ou computador, ou evitar contato com determinados aplicativos e redes. Isso é um sinal de que a experiência digital passou a ser traumática.
4. Uso excessivo e secreto da internet, especialmente à noite
Conexões em horários incomuns e tentativas de esconder o que está fazendo no celular (fechar janelas ao se aproximarem, apagar histórico, usar senhas em excesso) podem indicar envolvimento com contatos suspeitos.
5. Presença de fotos íntimas ou conversas inapropriadas no celular
O recebimento ou envio de imagens sensuais/sexuais, ou conversas com conteúdo sugestivo, mesmo entre adolescentes, podem indicar manipulação ou coerção por parte de adultos ou grupos criminosos.
6. Ansiedade, insônia ou distúrbios alimentares
Problemas emocionais e físicos recorrentes, como dificuldades para dormir, crises de ansiedade e mudanças bruscas no apetite, são comuns em vítimas de abuso, inclusive virtual.
7. Diminuição do rendimento escolar ou falta de concentração
A vítima pode apresentar queda nas notas, desatenção em sala ou dificuldades cognitivas causadas pelo trauma psicológico.
8. Mudança repentina no vocabulário ou sexualização precoce
Uso de termos inadequados para a idade, comportamentos sexualizados ou curiosidade extrema sobre sexo podem indicar exposição a conteúdos impróprios ou conversas abusivas.
9. Medo ou constrangimento ao falar sobre a vida digital
Se a criança evita falar com os responsáveis sobre o que faz na internet ou muda de assunto ao ser questionada, isso pode sinalizar que está escondendo interações perigosas.
10. Recebimento de presentes ou dinheiro de desconhecidos
Presentes recebidos sem explicação, transferências de dinheiro ou pedidos para manter segredos podem ser indícios de aliciamento ou troca por conteúdo sexual.
O que fazer diante de suspeitas:
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Mantenha a calma e crie um ambiente de escuta segura
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Converse com a criança ou adolescente com acolhimento, sem culpa ou pressão
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Salve provas (prints, conversas, fotos, e-mails) sem compartilhá-las com terceiros
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Denuncie imediatamente pelo Disque 100, SaferNet Brasil (www.safernet.org.br) ou procure a delegacia especializada
Campanha da ComCausa
Alinhada ao Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, a ComCausa, por meio do projeto Crianças com Direitos, lançou uma campanha permanente de conscientização e enfrentamento aos crimes sexuais cometidos no ambiente virtual contra crianças e adolescentes. A primeira etapa da mobilização ocorre entre os dias 19 e 22 de maio, de forma on-line, integrando a Semana Nacional de Enfrentamento à Violência Sexual contra Crianças e Adolescentes.
Criado à luz do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), o projeto Crianças com Direitos tem como objetivo promover a proteção integral e articular uma rede de apoio que defenda a dignidade e os direitos das crianças e adolescentes em todas as esferas da vida — inclusive no ambiente digital. A campanha pretende alertar a sociedade sobre os recorrentes ataques à infância e adolescência praticados por meio da internet, espaço no qual esses sujeitos estão cada vez mais presentes.
Reconhecendo a urgência da temática, a ComCausa estruturará uma ação contínua e sistemática, utilizando as redes sociais como principal ferramenta de informação e mobilização. Além da campanha virtual, a instituição organizará, em etapas posteriores, ações presenciais em escolas, universidades, ruas e comunidades, como rodas de conversa com pais, educadores e profissionais especializados, distribuindo materiais informativos e promovendo espaços de escuta e orientação.
Panorama dos crimes sexuais na internet contra crianças e adolescentes
Os dados mais recentes revelam um preocupante aumento da violência sexual no ambiente digital. Em 2023, a SaferNet Brasil registrou 71.867 denúncias únicas de pornografia infantil, um crescimento de 77 % em relação a 2022 — o maior já registrado desde a criação da Central Nacional de Denúncias de Crimes Cibernéticos, há 18 anos.
Grande parte desse aumento está relacionado ao uso do aplicativo Telegram, hoje o principal vetor de distribuição de conteúdo de abuso sexual infantil (CSAM – Child Sexual Abuse Material). Apenas em 2024, foram identificados 2,65 milhões de perfis em canais e grupos dedicados à veiculação desse tipo de material. O Telegram respondeu por 90,35 % das denúncias envolvendo aplicativos de mensagens, com um crescimento de 78 % no número de grupos ativos sem moderação em apenas seis meses.
No cenário internacional, o Brasil passou da 27ª para a 5ª posição entre os países que mais contribuem com denúncias para a rede INHOPE, que reúne hotlines de combate ao CSAM em diversos países. Em 2024, foram reportadas por brasileiros 52.999 páginas com material de abuso, sendo que apenas 1.155 dessas estavam efetivamente hospedadas em servidores no Brasil — o que evidencia a natureza transnacional do crime.
Já o banco de dados da INTERPOL (ICSE) possui mais de 4,9 milhões de imagens e vídeos de violência sexual infantil, com 42.300 vítimas identificadas. No entanto, o volume de material cresce de forma muito mais acelerada do que a capacidade global de investigação e identificação.
Embora esses dados se refiram à esfera digital, o problema é ainda mais amplo. De acordo com o Ministério da Saúde, somente em 2023 foram notificadas 57.698 ocorrências de violência sexual contra pessoas com até 19 anos — média de 158 casos por dia. Do total de notificações, 73,5 % atingiram crianças e adolescentes, com predominância de meninas e ocorrência majoritária dentro do ambiente doméstico.
Canais oficiais para denúncia
- Disque 100 – Canal da Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos: ligação gratuita, atendimento via WhatsApp (61 99611-0100), Telegram (@direitoshumanosbrasil) e site oficial.
- SaferNet Brasil – Recebe denúncias de perfis, links, grupos e conteúdos suspeitos: denuncie.org.br.
- Polícia Federal – Delegacias especializadas em crimes cibernéticos podem abrir investigações formais e realizar perícias.
Diante desse cenário alarmante, é urgente consolidar ações permanentes de enfrentamento aos crimes sexuais on-line. A campanha da ComCausa se insere nesse esforço coletivo, promovendo conscientização, proteção e articulação de políticas públicas que fortaleçam a rede de cuidado às infâncias. Proteger nossas crianças e adolescentes é responsabilidade de toda a sociedade — tanto no mundo real quanto no digital.
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