Dia do Nordestino: memória, presença e a “ocupação” afetiva do Rio de Janeiro

Patativa do Assaré

O Dia do Nordestino, celebrado em 8 de outubro, é muito mais que uma data no calendário. É um ato de reconhecimento da potência cultural, social e econômica de um povo que, há séculos, ajuda a inventar o Brasil — e que, em tempos mais recentes, também reinventou o Rio de Janeiro, por meio do trabalho, da fé, da música, da culinária, das linguagens, das redes de solidariedade e dos modos de viver. A homenagem remete ao centenário do poeta popular cearense Antônio Gonçalves da Silva, o Patativa do Assaré (1909–2002), que transformou o cotidiano do sertão em literatura de resistência e consciência crítica.

De Maranhão, Piauí e Ceará a Rio Grande do Norte, Paraíba e Pernambuco, passando por Alagoas, Sergipe e Bahia, o Nordeste é uma matriz viva da brasilidade. São paisagens que vão das chapadas e sertões aos litorais luminosos; culinárias que preservam saberes ancestrais — do barreado ao bobó, do mugunzá ao sarapatel; línguas e ritmos que atravessam séculos — do coco ao maracatu, do forró pé de serra ao frevo, do ijexá às guitarradas do Recôncavo; e artesanatos e oralidades que mantêm vivas memórias afro-indígenas e luso-brasileiras. O Nordeste não é apenas uma região geográfica: é um sistema de cultura que sustenta e inspira o país.

A “ocupação” do Rio de Janeiro: afeto, trabalho e direito à cidade

Quando se fala em “ocupação do Rio de Janeiro pelos nordestinos”, não se trata de metáfora pejorativa, mas de um manifesto político: é uma ocupação afetiva, produtiva e cidadã, que repara ausências históricas e amplia a democracia urbana. O Rio de Janeiro simplesmente não se explica sem a força nordestina que ergueu casas, escolas, hospitais, vias; que garantiu a alimentação cotidiana nas feiras, bares e restaurantes; que animou os palcos, os blocos e a economia criativa; que movimenta o transporte, a limpeza urbana, a construção civil, a saúde, a educação, o comércio e as redes de cuidado.

Basta atravessar a cidade para sentir essa presença: a Feira de São Cristóvão transformada em parque cultural; as padarias, mercados e barracas que educaram o paladar carioca; as roças urbanas e cozinhas comunitárias da Baixada e da Zona Oeste; os terreiros, irmandades, quadrilhas e rodas de forró que constroem comunidade. Em Madureira, Campo Grande, Pavuna, Duque de Caxias, Nova Iguaçu e tantos outros territórios, a migração nordestina fincou raízes, abriu pequenos negócios, ocupou universidades, articulou coletivos e ajudou a manter vivo o direito à cidade — de morar, circular, produzir e celebrar.

Por isso, assumimos a palavra “ocupação” como ato político e de gratidão: contra a xenofobia e o preconceito, a favor de uma cidade mais justa, que reconhece o valor de quem a constrói todos os dias.

Patativa do Assaré e a política da palavra

Patativa transformou a experiência do sertão em consciência crítica. Sua poesia denunciou desigualdades, celebrou a dignidade do povo e ensinou que não existe cultura “menor” quando ela nasce da terra e se oferece ao mundo. Com ele, aprendemos que memória é ação: lembrar é disputar sentidos de país, é recusar leituras que culpabilizam migrantes e é exigir políticas públicas que enfrentem a pobreza, a fome, a desinformação e a violência.

Cultura em trânsito: o que o Rio aprende com o Nordeste

A cidade do Rio de Janeiro aprende diariamente com o Nordeste. A culinária educa paladares com baião, cuscuz, carne de sol, tapioca, buchada e moquecas, fortalecendo economias locais. A música e a dança fazem das ruas palcos culturais — com forró, maracatu, festivais e rodas — que produzem convivência e previnem a violência. O artesanato e o design popular, pelas mãos de rendeiras e mestres da madeira, da palha e do barro, atualizam tradições e se integram a cadeias criativas. A fé organiza redes de proteção social em festas de santo, romarias e terreiros. E a educação popular se renova em cursinhos, projetos culturais e coletivos que impulsionam trajetórias acadêmicas e ocupam universidades.

Combater a xenofobia é, antes de tudo, uma política de direitos humanos

Celebrar o Dia do Nordestino no Rio de Janeiro não pode se limitar ao reconhecimento simbólico: é também responsabilizar o poder público diante da urgência de transformar homenagens em garantias concretas. Isso significa ampliar linhas de fomento à cultura comunitária, valorizando coletivos, festas populares e expressões artísticas que mantêm viva a memória e a identidade nordestina na cidade. Implica investir em educação antidiscriminatória e em comunicação pública capaz de enfrentar estereótipos e preconceitos, além de reconhecer mestres e mestras da cultura como patrimônio vivo, com a dignidade e o apoio que merecem.

Também passa por garantir regularização fundiária e moradia digna para milhares de famílias que construíram sua vida em territórios populares, assegurando o direito à cidade. Por fim, exige fortalecer o trabalho decente e a proteção social daqueles e daquelas que sustentam serviços essenciais e movimentam a economia. Celebrar o Nordeste é, portanto, assumir um compromisso político com justiça, igualdade e respeito à diversidade.

Um Brasil que cabe no Rio — e um Rio que cabe no Brasil

O Nordeste não é visitante no Rio: é coproprietário do futuro da cidade. A ocupação nordestina é uma aliança cidadã, que afirma que migrar não é crime e pertencer não é privilégio. Se o Brasil se construiu em idas e vindas, o Rio se refaz todos os dias na chegança nordestina — no trabalho que ergue, no afeto que sustenta, na cultura que ilumina.

O 8 de outubro é o momento de dizer em voz alta: obrigado, Nordeste — pelo chão que vira casa, pelo sotaque que vira canção, pelo cuidado que vira política. Que a homenagem se converta em direitos, e que a memória se traduza em futuro.

Campanha Permanente Nordeste em Nós – ComCausa

A ComCausa Defesa da Vida mantém de forma permanente a campanha “Nordeste em Nós”, uma iniciativa que vai além da efeméride do Dia do Nordestino e busca dar visibilidade contínua à contribuição histórica, cultural, social e econômica do povo nordestino para o Rio de Janeiro e para o Brasil.

Um Rio atravessado pelo Nordeste

O Rio não se entende sem a presença nordestina. Essa ocupação é demográfica, cultural, política e identitária. Nas obras erguidas, nas feiras populares, nas cozinhas familiares, nas festas religiosas, nas rodas de forró e nas universidades públicas, o Nordeste pulsa em cada esquina da metrópole. A campanha “Nordeste em Nós” nasce para reconhecer essa presença não como “ajuda externa”, mas como parte constitutiva da própria cidade e do país.

Eixos da Campanha

Memória e Identidade: preservação de histórias de migrantes nordestinos que formaram comunidades na Baixada e no estado do Rio.

Cultura Viva: apoio a festas, grupos, cordelistas, rendeiras, feirantes e mestres da tradição, reconhecidos como patrimônio vivo.

Educação Popular: oficinas, conteúdos e debates contra a xenofobia, levando o tema a escolas e universidades.

Comunicação e Mobilização: uso do PortalC3.net, da RedeDH e redes sociais da ComCausa para amplificar vozes e denunciar discriminações.

Direito à Cidade: luta por políticas de moradia, trabalho decente, saúde e cultura que incluam os nordestinos como sujeitos de direito.

Contra a xenofobia, pela cultura de direitos

A campanha é uma resposta à estigmatização histórica, reafirmando o Nordeste como força criadora, resistente e transformadora. Celebrar o Nordeste no Rio é combater a xenofobia e afirmar uma cultura de direitos: migrar, viver com dignidade, produzir cultura e ser reconhecido como parte essencial da sociedade.

Uma campanha sem prazo de validade

Ao ser chamada de permanente, a campanha reforça que não se trata de ação sazonal. O Nordeste está entranhado no cotidiano carioca — no sotaque, na comida, na fé, na arte e no trabalho que move a cidade. O “Nordeste em Nós” é memória, futuro e política: reconhecer o Nordeste é reconhecer que o Brasil só existe porque é plural.

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