Era uma vez… Era uma vez nada, porque não foi só uma vez que Berenice dormiu e acordou

Bebê com sinais de violência morre em UPA da Maré. — Foto Reprodução redes sociais

Berê dormia e acordava todos os dias; todos os dias ela prometia: Hoje vai!!! Vou explicar o que vai… Berenice morava em uma casinha de boneca. Não era uma casinha de boneca daquelas de boneca não, era uma casinha pequena, com janelinhas pequenas, cantinhos, recantinhos… Berê não saía da toca, pedia comida, pedia roupa, pedia até sorvete de chocolate… mas não saía.

Texto por: Renata Motta

Todo dia ela prometia: Hoje vai!!!

Mas, quando ela tentava sair, ouvia barulhos horrorosos vindo do lado de fora. Não sabia o que era, mas achava que era um monstrengo verde e roxo, porque verde com roxo não combina. Berê ouvia aquilo, se apavorava, imaginava como era o monstrengo. Para ela, era grande, com braços que arrastavam no chão e que nunca cortava as unhas dos pés (monstrengo que se preza, não corta as unhas dos pés).

Berê estava cada vez mais triste, mais presa, mais medrosa… uma vez, o sorvete chegou derretido — coisa que não vale, porque sorvete derretido não presta. Berê juntou todo pedacinho de coragem que tinha dentro dela e da casinha dela e colocou o nariz pra fora.

Assim que a ponta do nariz medroso da Berê saiu da casinha… Ahhhhhhhh, o barulhão! Ela deu um pulo muito mal pulado; ao invés de cair pra dentro, caiu pra fora… Lascou-se, estava do lado de fora imaginando que o monstrengo ia fazer espetinho de Berê pro almoço.

Aí que ela viu o monstrengo… que susto!!!
Não era o monstrengo. Berê tinha um vizinho que morava do lado: o Bené. Bené era uma cara legal, mas coragem pra ir ao dentista não era seu forte, e ele sofria igual a carpideira por causa de uma dor de dente.

Os barulhos que Berê ouvia eram só o bebê chorão do Bené, com medo e com dor… Os dois começaram a se conhecer, a dividir seus medos… Bené achou que Berê era corajosa demais. Ela foi até ao dentista com ele, segurou a mão de Bené bem firminha, e o Dr. Dentista tapou o buracão que tinha no dente do medroso.

Bené passou a comprar sorvete pra Berê. Um dia, quando tomavam sorvete de chocolate juntos, eles perceberam que queriam ser mais que amigos. Foram se conhecendo e começaram a namorar (namorar é só pra adulto, tá?).

As casinhas pequenininhas? Derrubaram a parede, se casaram, teve véu, brigadeiro e convidados…

Berê ajudou Bené com o medo do dentista, segurando sempre a mão dele, e Bené ajudou Berê com o medo da vida… Nunca mais um largou a mão do outro.

Berê agora compra seu próprio sorvete e até provou outros sabores (ela continua gostando de chocolate). Bené foi até ao dentista sozinho (o medo ainda estava lá, mas não maior que ele!). Os dois estão felizes que só vendo, uma lindeza… Ahhh, Bené corta as unhas dos pés bem cortadinhas e nunca usa verde com roxo — isso não combina mesmo…

Texto por: Renata Motta

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