Maio Laranja: as marcas invisíveis do abuso sexual e seus impactos na vida adulta

Maio Laranja - Exploração infantil

Por Elisabete Brasil, Psicanalista Clínica

Maio é o mês em que o Brasil se une na campanha Maio Laranja, promovendo a conscientização e o combate ao abuso e à exploração sexual de crianças e adolescentes. No entanto, é preciso reconhecer que as consequências dessa violência vão muito além da infância — elas moldam vidas inteiras.

Como psicanalista clínica, vejo diariamente os rastros deixados pelo abuso sexual na vida adulta. Muitos adultos que buscam terapia relatam sintomas como ansiedade crônica, depressão, dificuldades de relacionamento, transtornos alimentares, vícios ou até mesmo bloqueios profissionais e criativos. Quando investigamos mais a fundo, frequentemente encontramos experiências traumáticas de abuso na infância que não foram acolhidas ou elaboradas emocionalmente.

O impacto do abuso sexual no desenvolvimento emocional

O abuso sexual compromete profundamente o desenvolvimento da identidade e da autoestima. A criança violentada frequentemente internaliza sentimentos de culpa, vergonha e medo. Mesmo na vida adulta, essas emoções podem se manifestar como autossabotagem, dificuldade em estabelecer limites saudáveis e problemas de intimidade.

Do ponto de vista psicanalítico, o trauma do abuso cria “fissuras” no inconsciente, que tendem a se repetir em padrões de comportamento autodestrutivos ou em escolhas de relacionamentos abusivos. O que não foi simbolizado na infância acaba se repetindo de forma inconsciente até que seja elaborado em um processo terapêutico.

A importância da escuta e do tratamento

Muitos adultos evitam tocar nesse passado doloroso, seja por medo, vergonha ou negação. Porém, calar essas vivências apenas prolonga o sofrimento. A terapia oferece um espaço seguro onde essas histórias podem ser contadas sem julgamento. A escuta psicanalítica permite que o sujeito ressignifique o trauma, compreenda que a responsabilidade nunca foi sua e recupere o direito de viver com dignidade emocional.

Romper o silêncio é um ato de coragem

Neste Maio Laranja, mais do que nunca, é fundamental reforçar a importância de romper o silêncio. Denunciar abusos e oferecer suporte às vítimas é uma responsabilidade de toda a sociedade. Para quem carrega essas cicatrizes, buscar ajuda terapêutica não é sinal de fraqueza, mas de força.

Como psicanalista, deixo um convite: não permita que o passado defina quem você é. As dores podem até fazer parte da sua história, mas com acolhimento e tratamento, é possível escrever novos capítulos de superação e liberdade emocional.

Disque 100. Denuncie! Salve vidas!

Você pode estar carregando marcas invisíveis do abuso sexual se percebe em sua vida adulta:
● ✔ Dificuldade em confiar nos outros ou medo de intimidade
● ✔ Sensação constante de culpa ou vergonha sem motivo claro
● ✔ Autossabotagem em relacionamentos ou carreira
● ✔ Problemas de autoestima ou autoimagem negativa
● ✔ Transtornos de ansiedade, depressão ou pânico
● ✔ Dificuldade em estabelecer limites pessoais
● ✔ Sintomas físicos recorrentes sem causa médica aparente (dores, insônia, fadiga crônica)
● ✔ Comportamentos compulsivos (comida, compras, sexo ou substâncias)

Se você identificou algum desses sinais, saiba: não está sozinho(a). Busque apoio profissional. Romper o silêncio é o primeiro passo para a cura.
Para refletir:

“O que é silenciado se repete. O que é acolhido, se transforma.”

Que este Maio Laranja não seja apenas uma campanha, mas um chamado à escuta, à denúncia e ao cuidado. Se você ou alguém que conhece precisa de ajuda, procure um profissional qualificado. Curar-se é um direito. Reescrever a própria história é possível.

Conto de Elisabete Brasil 21 97913 2121

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