A jovem Sther Barroso dos Santos, de 22 anos, foi assassinada de forma brutal na madrugada de domingo, 18 de agosto, após ser agredida por criminosos durante um baile funk na comunidade da Coreia, em Senador Camará, Zona Oeste do Rio de Janeiro. Segundo a família, Sther foi espancada por dois homens a mando de um traficante local, identificado como Bruno da Silva Loureiro, conhecido como “Coronel”, após se recusar a sair com ele do evento.
A jovem foi encontrada desfigurada e inconsciente na porta de sua casa, na Vila Aliança, comunidade próxima. Ela foi levada ao Hospital Municipal Albert Schweitzer, em Realengo, mas já estava sem vida quando chegou à unidade.
Mandante do crime é conhecido líder do tráfico
Segundo a Polícia Civil, Bruno Loureiro é apontado como o principal suspeito de mandar matar Sther. Ele é conhecido por seu histórico violento e já possui diversas anotações criminais por tráfico de drogas, homicídio, porte ilegal de arma de uso restrito, roubo de veículos e formação de quadrilha.
Integrante do Terceiro Comando Puro (TCP), Coronel costumava se esconder no Complexo da Maré, mas voltou recentemente a circular pelas comunidades da Coreia e da Vila Aliança, territórios dominados pela mesma facção. De acordo com a polícia, ele frequentemente comparece a bailes funks, locais usados por traficantes como instrumentos de poder e opressão nas comunidades.
A investigação está a cargo da Delegacia de Homicídios da Capital (DHC), que busca identificar todos os envolvidos no crime. Até o momento, nenhum suspeito foi preso.
Sther: jovem com sonhos interrompidos
Parentes e amigos descrevem Sther como uma jovem tranquila, dedicada à família e cheia de sonhos. Ela havia iniciado o processo para tirar a carteira de habilitação, se preparava para mudar de residência e desejava realizar cursos profissionalizantes. Nos últimos meses, comemorava conquistas pessoais e buscava um novo recomeço, após sair da comunidade do Muquiço, também controlada por Coronel. “Ela estava refazendo a vida. Já tínhamos sido roubados antes e mudamos para buscar paz. Estávamos felizes. E ele [traficante] acabou com tudo”, lamentou a irmã da vítima em suas redes sociais.
Poucas horas antes de ser morta, Sther dançava ao som de um dos artistas que admirava, em um momento de lazer com amigos. A irmã relatou que ajudou Sther a se arrumar para o baile, sem imaginar que aquela seria a última vez que a veria com vida.
Sonhos anotados e interrompidos
Em um dos cadernos pessoais da jovem, a família encontrou metas e desejos para o ano de 2025. Entre os planos estavam:
- concluir a autoescola
- fazer três cursos
- adotar um cachorro
- manter rotina de treinos na academia
- agradecer a Deus todos os dias
- acompanhar o processo de liberdade do irmão preso
- “ser usada para o bem”
Em uma das últimas anotações, escreveu: “Vai ser o melhor ano da minha vida, eu profetizo!”
A mãe, extremamente abalada, não conseguiu se pronunciar. Já a irmã fez duras críticas à ausência do Estado nas favelas e denunciou o controle que o tráfico ainda exerce sobre a vida – e a morte – das pessoas nas periferias do Rio.
Estado ausente, violência presente
O caso de Sther evidencia o poder paralelo imposto por facções criminosas em comunidades periféricas e a vulnerabilidade das mulheres nesses contextos. O episódio segue um padrão denunciado há anos por movimentos de direitos humanos: o uso de violência sexual, controle social e feminicídio como ferramentas de dominação territorial.
Em diversos relatos, organizações como a ComCausa Defesa da Vida têm reforçado que mulheres nas favelas sofrem dupla opressão: pela condição de gênero e pela ausência de garantias estatais de proteção, o que as torna alvos frequentes de agressões, estupros, desaparecimentos e mortes. “Esse caso é brutal, mas não é isolado. Há um histórico de violência sexual contra mulheres que se recusam a obedecer ordens de traficantes. A ausência de políticas de proteção e a falta de presença efetiva do Estado nas comunidades contribuem para a perpetuação dessa barbárie”, alertou um representante da ComCausa.
Clamor por justiça
Familiares e amigos cobram respostas urgentes. A irmã da vítima, em seu desabafo, prometeu lutar até o fim: “Eu não tenho sono, não tenho sede. Eu quero justiça. Não vou parar até ver esse homem pagar pelo que fez com a minha irmã. Ela tinha sonhos, era amada. Ninguém tinha o direito de tirar isso dela.”
O que diz a polícia
A Polícia Militar, por meio do 14º BPM (Bangu), informou que foi acionada pelo hospital após a entrada de Sther. A ocorrência foi registrada inicialmente na 34ª DP (Bangu) e repassada à Delegacia de Homicídios, que investiga o caso.
As diligências estão em curso, e a polícia pede que informações sobre o paradeiro de Bruno Loureiro ou dos executores sejam enviadas, mesmo de forma anônima, ao Disque Denúncia (2253-1177).
Um símbolo da luta contra a impunidade
A morte de Sther se soma a uma série de feminicídios e assassinatos de jovens periféricos que revelam uma realidade cruel e silenciada. A ComCausa seguirá acompanhando o caso, oferecendo apoio jurídico à família, pressionando por respostas institucionais e denunciando o padrão de impunidade que favorece agressores e mata sonhos como os de Sther, ainda no início de suas trajetórias.
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