Festa Kwanzaa reúne fé, ancestralidade, cultura e almoço comunitário em Meriti

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Aconteceu neste domingo 28 de dezembro, em São João de Meriti, na Baixada Fluminense, um encontro que juntou aquilo que, na vida real dos territórios, costuma ser o que sustenta as pessoas quando o ano pesa: espiritualidade, memória, convivência, cultura e mesa partilhada. A Confraternização do Núcleo Grupo de Oração e Convivência Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, realizada no Casarão Bar, incorporou a Festa Kwanzaa 2025/2026 e transformou um domingo aparentemente comum em um momento comunitário de alta densidade simbólica e afetiva — um encontro que não se limita a “fazer festa”, mas que reafirma valores, reorganiza vínculos e produz pertencimento.

A programação de hoje foi, ao mesmo tempo, simples e profunda. Simples porque partiu do essencial: acolher, reunir, partilhar, conversar, comer junto, cantar, ouvir a Palavra, rezar, lembrar de quem veio antes, e acender velas que têm significado. Profunda porque, por trás desses gestos, há um modo de fazer comunidade que não é improvisado: é histórico, é pedagógico, é territorial, e é antirracista. Em tempos de pressa, individualismo e cansaço social, encontros como esse funcionam como uma espécie de “reabastecimento” coletivo: as pessoas se reconhecem, se veem, se escutam, se encontram, e isso, por si só, já é uma resposta contra a fragmentação.

Nesta cobertura, a ComCausa – Defesa da Vida registra a potência de iniciativas que reafirmam convivência como política do cotidiano e mostram que, na Baixada, fé e cultura continuam sendo caminhos concretos de Defesa da Vida — não como palavra bonita, mas como prática que se faz com presença, cuidado e continuidade.

Kwanzaa 2025/2026: “Festa da Colheita” e festival afro-diaspórico na Baixada

O texto do material distribuído no encontro apresenta a Kwanzaa 2025/2026 como “Festa da Colheita” e reforça um dado importante para a história cultural da região: trata-se de um festival afro-americano na Baixada Fluminense desde 1997, mostrando que a celebração não é novidade improvisada, mas uma tradição consolidada, atravessando décadas, atravessando gerações e se reinventando sem perder seus fundamentos.

O folheto identifica a realização como uma ação articulada pela Pastoral Afro-Brasileira e pelo Grupo de Oração e Convivência Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, com apoio do Casarão Bar — um detalhe que também diz muito sobre o território, porque reforça o caráter comunitário e de parceria local: a festa não acontece “em lugar neutro”, acontece em espaços reais, com gente real sustentando, apoiando e fazendo. O material ainda registra agradecimentos e reconhecimentos a pessoas e famílias citadas nominalmente, um gesto típico de comunidades que sabem que nada se sustenta sozinho e que a memória também se faz reconhecendo quem soma.

Na parte histórica, o texto do encontro explica que a Kwanzaa é uma celebração cultural afro-americana de sete dias, celebrada entre 26 de dezembro e 1º de janeiro, e aponta sua origem em 1966, criada por Dr. Maulana Karenga. O folheto destaca que a celebração foi inspirada em festivais africanos de colheita e que se organiza para celebrar herança africana, fortalecer laços comunitários e promover valores éticos por meio dos Sete Princípios (Nguzo Saba). Aparece também a referência ao suaíli (Swahili), às regiões de África Oriental e Central, e ao sentido de “primeiros frutos” — uma expressão que, na prática, funciona como metáfora poderosa: não se trata apenas do que foi colhido no ano, mas do que a comunidade quer plantar como futuro.

O material insiste em um ponto fundamental: não se trata de uma celebração religiosa. Trata-se de uma celebração cultural com forte simbolismo social, cultural e político, e o grupo local adapta a Kwanzaa à sua realidade. Isso é decisivo para compreender o que aconteceu hoje: a Kwanzaa, em Meriti, aparece como prática afro-diaspórica contextualizada, conectada à vida comunitária, à fé popular, ao antirracismo e à educação de valores para o cotidiano.

Acolhimento: música, beleza negra e a porta de entrada da celebração

A programação impressa descreve o início como Acolhimento, marcado por música e por uma mensagem de boas-vindas que celebra a beleza negra e o Axé como linguagem de recepção. Esse detalhe, que pode parecer pequeno, é na verdade um ponto estruturante: acolher não é formalidade, é método comunitário. É a forma de dizer “você pertence”, “você pode ficar”, “você pode participar”, “aqui você não está sozinho”.

O acolhimento também organiza o clima do encontro. Ele cria ambiente, alinha as pessoas, estabelece respeito e abre espaço para que diferentes gerações se sintam seguras. Em territórios onde a violência e a insegurança atravessam o cotidiano, produzir um espaço protegido — ainda que por algumas horas — é uma forma concreta de cuidado comunitário. E cuidado, em sentido amplo, também é Defesa da Vida.

Palavra de Deus, Ano Jubilar e a esperança como compromisso coletivo

Outro trecho do material costura a celebração com referências do calendário cristão: “Ouvindo a Palavra de Deus”, com menção ao Evangelho da Sagrada Família e ao contexto do final do Ano Santo/Jubilar de 2025, trazendo como referência a frase “Somos peregrinos da Esperança”. O roteiro também sugere um canto ligado à Palavra e organiza a sequência: breve reflexão do Evangelho e invocação aos antepassados.

Essa sequência é uma chave para entender a espiritualidade vivida hoje. Ela afirma, na prática, algo que muitas comunidades negras já sabem: fé cristã popular e memória ancestral não precisam ser tratadas como oposição automática. Em muitos territórios, a experiência comunitária negra é, historicamente, uma experiência de síntese: é fé que se faz no cotidiano, é devoção que se faz na rua, é comunidade que se reconhece na música, é memória que se mantém viva em gesto e palavra. O roteiro ainda cita a partilha com “mais novos e mais velhos”, reforçando o caráter intergeracional do encontro: o evento não é “para adultos” ou “para jovens”, é para a comunidade inteira, porque os valores só se perpetuam quando atravessam gerações.

O momento central, as velas e o chamado “Habarigani”

No roteiro, há uma frase que funciona como virada de chave: “Chegou a hora”. É o anúncio do Momento Central do Kwanzaa, quando se acendem as velas e se compartilha o sentido da celebração com os presentes. A forma como o texto descreve esse momento revela o caráter pedagógico do rito: acender velas não é cenografia, é linguagem; e linguagem comunitária serve para transmitir valores.

O material convoca o público para repetir a pergunta ritual: “Habarigani?”, e logo em seguida apresenta os Sete Princípios (Nguzo Saba), com traduções e sentidos:

  • Umoja (Unidade): a base comunitária, o laço que sustenta família, vizinhança, rede e pertencimento.
  • Kujichagulia (Autodeterminação): o direito de o povo negro se definir, narrar sua história e construir seu futuro.
  • Ujima (Trabalho Coletivo e Responsabilidade): reconhecer problemas comuns e responder a eles como comunidade, com corresponsabilidade.
  • Ujamaa (Economia conjunta / cooperativa): fortalecer redes de solidariedade econômica e cooperação comunitária.
  • Nia (Propósito): viver com direção ética e compromisso com justiça e bem comum.
  • Kuumba (Criatividade): cultura, arte e invenção como ferramentas de resistência e reconstrução do mundo.
  • Imani (Fé): a confiança que sustenta a caminhada e mantém a comunidade viva, de pé e esperançosa.

Ao colocar esses princípios no centro, o encontro afirma que Kwanzaa não é apenas “celebração”, mas um mapa de valores para o cotidiano. É como se o evento dissesse: daqui pra frente, o ano começa com unidade, responsabilidade e fé, e não com isolamento, cansaço e desesperança.

Imani: a fé que sustenta, protege e reorganiza o futuro

Entre os sete princípios, Imani (Fé) ganha peso especial no contexto do encontro de hoje porque o evento ocorre dentro de um ambiente que é, simultaneamente, comunitário, espiritual e cultural. O folheto traduz Imani como “Fé”, mas o sentido que se constrói no conjunto do material e do rito é mais amplo: Imani é confiança, permanência, esperança ativa, coragem comunitária. É aquilo que permite que o povo continue plantando futuro mesmo quando a realidade empurra para o desânimo.

Imani, nessa leitura, é fé que não se limita ao íntimo. É fé que vira prática: fé na comunidade, fé nas crianças, fé nos mais velhos, fé na memória, fé no direito de existir com dignidade. É uma fé que não pede para a gente “ignorar” o racismo estrutural; ao contrário, ela reconhece a realidade e escolhe responder com valores, presença e organização. Em territórios atravessados por violência e precarização, Imani também é aquilo que protege a autoestima coletiva: um lembrete de que a vida negra tem valor, tem história, tem beleza e tem direito de prosperar.

Nossa realidade e contextualização: Baixada, racismo estrutural e vida cotidiana

Um dos trechos mais densos do material é o que trata da “nossa realidade e contextualização”. O texto afirma que a Kwanzaa, embora nascida no contexto afro-americano, pode ser entendida como iniciativa afro-diaspórica, plenamente dialogável com a realidade de negros e negras afro-brasileiros vivendo sob as forças do racismo estrutural. O texto menciona ainda a Baixada Fluminense como território de presença negra expressiva e descreve marcas culturais e religiosas que atravessam a região: presença em igrejas, comunidades católicas, espaços de matrizes africanas, festas e encontros de gerações — e, ao mesmo tempo, a marca da violência e da desigualdade nas periferias.

O material também aborda trabalho e renda, reconhecendo condições como serviços, comércio, trabalho doméstico e as transformações contemporâneas associadas à terceirização e aos aplicativos, mostrando que a contextualização não é “genérica”: ela mira o cotidiano de muita gente.

Ao incluir essa leitura de realidade, a Kwanzaa vivida hoje deixa claro que não se trata de celebração “fora do mundo”, mas de celebração inserida no mundo — um tipo de encontro que reconhece dor e desigualdade, mas escolhe produzir força, pertencimento e esperança coletiva.

Fé e Vida: Cristo, justiça, amor e paz como horizonte

Outro trecho do material conecta fé e compromisso social, citando referência ligada à CNBB e afirmando que a fé cristã, no contexto apresentado, aponta para justiça, amor e paz. O texto menciona o sonho de uma sociedade sem racismo, sem feminicídio e sem desigualdades brutais, conectando espiritualidade a transformação social. Essa abordagem também reforça um ponto: no encontro de hoje, fé não apareceu como fuga, mas como direção ética.

Nessa síntese, Imani encontra chão: fé como princípio comunitário que sustenta a unidade (Umoja), fortalece o propósito (Nia), inspira criatividade (Kuumba) e ajuda a assumir responsabilidade coletiva (Ujima). Não é fé isolada, é fé que reorganiza relações e promove convivência com dignidade.

Cantos e celebração: cultura como idioma de pertencimento

O roteiro registra também momentos de canto e música, citando músicas como parte do encontro. De novo: não é detalhe. Em celebrações afro-diaspóricas, o canto é parte da transmissão. Ele cria memória emocional, reforça pertencimento, convida a participar e estabelece um ritmo coletivo. Cantar junto é um gesto simples, mas poderoso: ele transforma um grupo de pessoas em comunidade por alguns minutos, porque cria unidade no corpo e na voz.

E, ao final, a saudação “Feliz Kwanzaa, Feliz 2026” aparece como o fechamento natural de um encontro que não quer apenas celebrar datas, mas abrir caminho para um ciclo novo com valores mais fortes e vínculos mais inteiros.

Antirracismo explícito: racismo é crime e informação também é cuidado

O folheto também registra de forma direta: racismo é crime. Ao citar legislação e canal institucional, o material mostra que o evento tem dimensão cidadã e pedagógica. Informar também é proteger. E, em um território onde a violência simbólica e material do racismo é constante, uma celebração antirracista que combina cultura, fé e orientação cidadã cumpre papel público relevante: ela fortalece a consciência, protege a comunidade e reafirma que ninguém deve naturalizar a violação.

Avisos importantes: rotina, corresponsabilidade e continuidade depois do evento

A seção de avisos revela como a comunidade se mantém viva para além do encontro de hoje. O material registra que hoje ainda haveria bingo, esclarece que bebidas seriam tratadas diretamente com o Casarão Bar, e anuncia agenda para janeiro: no dia 03 de janeiro de 2026, o II Giro da Folia, no Morro do Embaixador, a partir de 14h30.

Peregrinação, contatos e referência bibliográfica: rede e memória em movimento

Nos recados finais, o material divulga uma proposta de peregrinação em julho de 2026 ao Santuário de Nhá Chica (Baependi, MG), com orientação sobre “sinais” a partir de março de 2026, além de detalhes de organização. O folheto também indica contatos de referência e registra autoria/organização do texto. Por fim, recomenda leitura para aprofundamento: o livro “Nosso Jeito de Celebrar”, conectando a Kwanzaa a uma rede maior de memória, escrita e produção cultural negra.

Essa parte é importante porque mostra continuidade cultural: a celebração não fica restrita ao evento, ela se liga a livro, calendário, agenda e comunidade em movimento.

Por que registrar encontros assim importa

Registrar a Kwanzaa vivida hoje em Meriti é registrar um modo de existir e resistir. A confraternização mostra que cultura, fé e convivência não são “enfeite” do território: são infraestrutura afetiva e social. Na Baixada Fluminense, onde o racismo estrutural e a desigualdade atravessam a vida cotidiana, encontros comunitários com memória, mesa e princípios têm valor público real: fortalecem rede, protegem vínculos, afirmam dignidade e educam pela prática.

Por isso, para a ComCausa – Defesa da Vida , iniciativas assim dialogam com uma cultura de direitos ancorada no cotidiano: pertencimento não é discurso, é convivência; dignidade não é slogan, é compromisso; e esperança, como o próprio roteiro sugere, é peregrinação — um caminho feito em comunidade, com valores e com fé.

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