Memória: quando o xá saiu do Irã e a transição virou disputa sobre o lugar das mulheres

Dia Estadual da Comunidade Árabe

Há datas que não são apenas “capítulos” de um livro de História: elas são o instante em que a vida comum muda de piso. No 16 de janeiro de 1979, o xá Mohammad Reza Pahlavi deixou o Irã sob pressão de um ciclo de greves, protestos e crise de governabilidade que já havia corroído o regime monárquico. A saída, tratada publicamente como um afastamento temporário, foi lida por milhões como o sinal de que a monarquia não conseguiria retomar o comando político nas mesmas condições — e, em transições assim, o que entra em disputa não é só o poder, mas o desenho de sociedade: quais direitos ficam, quais direitos “mudam de nome”, quais liberdades viram suspeitas, quais corpos passam a ser regulados.  

É esse o gancho central desta efeméride: viradas de regime reconfiguram direitos civis e o cotidiano. E quase sempre fazem isso em duas velocidades ao mesmo tempo: uma, que promete ordem, moral, segurança e “normalidade”; outra, que redefine o que é permitido na rua, na escola, no trabalho, na imprensa, no tribunal e, de modo especialmente visível, no espaço público ocupado por mulheres.

A transição como campo de batalha: quando “muda o governo” e muda a vida 

O 16 de janeiro não é o “fim” da Revolução Iraniana; é a abertura de uma fase em que a política deixa de ser apenas disputa institucional e vira disputa de legitimidade. Após a saída do xá, o primeiro-ministro Shapour Bakhtiar tentou sustentar um governo de transição, mas o centro de gravidade já estava em deslocamento: da estrutura do Estado para a capacidade de mobilização social. A cronologia dos fatos é conhecida: Khomeini retorna em 1º de fevereiro de 1979 e, dez dias depois, em 11 de fevereiro, as Forças Armadas declaram neutralidade, um gesto decisivo para a queda do regime anterior.  

Transições, porém, não são apenas cronologias. Elas são o momento em que as regras do jogo ficam porosas: imprensa e boatos competem com informações verificáveis; estruturas de segurança se fragmentam; a justiça passa a operar sob pressão de urgência; a rua cobra respostas imediatas; grupos que estiveram juntos contra o antigo regime passam a disputar entre si o “conteúdo” do novo regime. E aí aparece o ponto mais sensível para quem trabalha com cultura de direitos: a promessa revolucionária pode conviver com a tentação do controle, e o que se define nesse intervalo costuma marcar décadas.

Direitos civis na virada: liberdade, exceção e o risco de “normalizar” o extraordinário 

Toda virada de regime tem uma tentação recorrente: a ideia de que, por ter havido uma ruptura, “o novo” pode suspender garantias para “corrigir” o passado e, com isso, normalizar procedimentos extraordinários. No Irã pós-1979, organizações e análises sobre direitos humanos registram preocupações com o funcionamento de tribunais revolucionários e com padrões de devido processo em julgamentos políticos no período inicial do novo regime. 

Essa é uma lição que atravessa fronteiras: quando um país troca o comando, o teste real do compromisso democrático não está só no discurso, mas em como o novo poder trata dissenso, imprensa, organização social, direitos de defesa e pluralismo. É nesse ponto que “transição política” deixa de ser um debate abstrato e vira algo íntimo: o medo de falar, a autocensura, a vigilância, a repressão seletiva, a mudança de regras no trabalho e nos serviços públicos, a política entrando na cozinha, na escola, na roupa, no calendário e até no corpo. 

Mulheres no centro do conflito: política do corpo, política do espaço público 

Se existe um termômetro rápido para medir a direção de um novo regime, ele costuma aparecer na vida das mulheres: o que o poder decide sobre presença pública, vestimenta, participação política e direitos familiares. No caso iraniano, uma parte importante do debate envolve o destino das reformas no direito de família anteriores a 1979, como as Family Protection Laws (1967/1975), que ampliaram restrições a práticas como divórcio extrajudicial e poligamia e elevaram idade mínima de casamento; análises históricas apontam que esse marco foi revogado após a Revolução.

Mas a disputa não ficou apenas nos códigos. Ela explodiu nas ruas de forma muito concreta: em março de 1979, na primeira comemoração do Dia Internacional das Mulheres após a Revolução, mulheres protestaram em Teerã contra sinais e medidas que apontavam para a imposição de vestimenta (hijab) em espaços de trabalho e órgãos públicos, defendendo o direito de escolha e denunciando que a mudança de regime não poderia significar perda de autonomia e cidadania.  

O detalhe aqui é decisivo: quando o Estado transforma vestimenta e comportamento em fronteira política, ele está dizendo, sem rodeios, que pretende governar também o cotidiano. E quando isso recai de forma desproporcional sobre as mulheres, o recado é ainda mais amplo: trata-se de redefinir quem pode ocupar o espaço público, em quais condições, com quais punições sociais e institucionais e isso reverbera em liberdade de expressão, liberdade de organização, direito ao trabalho e participação política. 

O cotidiano reconfigurado: do aeroporto à esquina do bairro 

O 16 de janeiro de 1979 costuma aparecer em fotos e linhas do tempo, mas o que ele anuncia é um processo: a reorganização de rotinas de trabalho, escola, imprensa, justiça e segurança. Em transições intensas, o “dia a dia” vira campo de disputa porque ele é a camada em que o poder se torna visível: quem pode se reunir, quem pode protestar, que símbolos podem circular, o que vira tabu, o que vira obrigação, o que vira suspeita. E, nessa dinâmica, as mudanças mais duradouras raramente chegam como um decreto único; elas se acumulam como novos “padrões de normalidade”. 

Por que essa efeméride entra no radar da ComCausa – Defesa da Vida e da RedeDH 

Para a ComCausa – Defesa da Vida, que atua com comunicação pública, memória, direitos humanos e prevenção de violações, o 16 de janeiro de 1979 funciona como uma data-piloto para discutir transições políticas sem romantização e sem simplificação: regimes caem, mas o que nasce depois pode ampliar liberdades ou reorganizar controles; pode abrir participação ou enquadrar dissenso; pode produzir reformas ou impor novas restrições e, muitas vezes, as mulheres são as primeiras a sentir a direção concreta do novo pacto social. 

É por isso que esta pauta dialoga com a vocação editorial da RedeDH.org.br, canal de comunicação institucional ligado à ComCausa: registrar efemérides não como “curiosidade”, mas como chave de leitura do presente. Porque, quando um país muda de regime, o que está em jogo não é uma bandeira abstrata; é a fronteira entre direitos e exceções, entre liberdade e coerção, entre participação e silêncio, e isso interessa a qualquer território que luta para proteger vidas, sustentar dignidade e manter aberto o espaço público. 

Imagem de capa ilustrativa.

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