Mulheres pardas entre 20 e 29 anos são maioria entre vítimas de violência notificadas por profissionais de saúde no RJ

Violência contra mulher

Um novo painel de monitoramento da violência no estado do Rio de Janeiro, lançado pela Secretaria Estadual de Saúde (SES-RJ), revela dados alarmantes: mulheres pardas, especialmente aquelas com idade entre 20 e 29 anos, são as principais vítimas das violências notificadas por profissionais de saúde em 2025. Só este ano, foram 43.803 registros de atendimentos a pessoas em situação de violência em unidades da rede pública de saúde. Desse total, 73,5% das vítimas são mulheres, o que equivale a 32.202 ocorrências.

O painel, lançado no dia 25 de agosto, mapeia os tipos de violência mais comuns, perfis das vítimas, locais de ocorrência e características dos agressores. A ferramenta também será integrada ao Observatório do Feminicídio, coordenado pela Secretaria de Estado da Mulher, e servirá de base para políticas públicas de enfrentamento à violência de gênero no estado.

Perfil das vítimas: juventude parda sob ataque

O levantamento traz um recorte racial e etário das vítimas, revelando a face mais vulnerável da violência:

  • 47,8% das mulheres vítimas de violência são pardas
  • 29,4% são brancas
  • 18,2% são negras (pretas)
  • A faixa etária mais atingida é a de 20 a 29 anos, que representa 18,44% dos casos

Esse recorte mostra o impacto direto da intersecção entre racismo estrutural, machismo e desigualdade de renda. Jovens mulheres negras e pardas, muitas moradoras das periferias e da Baixada Fluminense, seguem enfrentando maior risco de violência — dentro e fora de casa.

Tipos de violência mais notificados

Os dados se referem a registros feitos diretamente por profissionais de saúde, com base em fichas preenchidas no momento do atendimento. Mesmo que a vítima tenha sofrido múltiplos tipos de agressão, a ficha contabiliza apenas o tipo mais grave.

Os principais tipos de violência registrados em 2025 são:

  • Violência física – 22.354 casos (45,3%)
  • Violência moral e psicológica – 7.060 casos (15,9%)
  • Violência sexual – 4.275 casos (10,1%)
  • Tortura – 550 casos
  • Violência financeira/econômica – 626 casos
  • Negligência e abandono – 6.670 casos
  • Trabalho infantil – 38 casos
  • Tráfico humano – 12 casos
  • Outros – 8.476 registros

Segundo o painel, o estupro é o tipo de crime sexual mais recorrente entre os casos de violência sexual.

A casa como espaço de violência

Um dado que chama atenção é que a residência da vítima segue sendo o principal local das agressões:

  • 64,2% das ocorrências aconteceram dentro de casa
  • Em 41,8% dos casos houve reincidência, ou seja, a vítima foi agredida mais de uma vez

Essa realidade reflete o ambiente de insegurança e desproteção familiar, onde muitas vezes a mulher ou criança não consegue romper o ciclo de violência por dependência financeira, medo, pressão social ou ausência de apoio estatal.

Quem são os agressores?

O painel também fornece o perfil dos prováveis autores das violências:

  • 49,1% são homens
  • 32,6% são mulheres (incluindo casos de negligência e abandono)
  • 48% dos agressores têm entre 25 e 59 anos

Esses dados desconstroem o estereótipo de que violência ocorre apenas em situações extremas. Na verdade, os agressores são, muitas vezes, familiares, companheiros ou pessoas próximas da vítima — o que reforça a importância de políticas de prevenção e proteção no âmbito doméstico.

Violência persistente

Em 2024, o número total de notificações em unidades de saúde foi ainda maior: 74.031 casos. A expectativa é que o número de 2025 continue crescendo até o fim do ano, o que indica maior vigilância e também o agravamento da violência estrutural.

Segundo a secretária de Estado de Saúde, Claudia Mello, a criação do painel tem objetivo estratégico:

“Ao reunir e qualificar esses indicadores, conseguimos mapear os casos de violência no estado e compreender as circunstâncias em que as pessoas em situação de violência estão inseridas. A partir disso, é possível elaborar políticas públicas com base na realidade vivida por nós mulheres e, assim, reduzir as vulnerabilidades sociais e garantir um futuro mais justo.”

Notificação não é denúncia

É importante ressaltar que as notificações feitas pelos profissionais de saúde não constituem denúncia formal à polícia, pois os registros são sigilosos e protegidos por lei. Ainda assim, o processo de notificação permite:

  • Inserção da vítima em redes de cuidado e proteção
  • Acompanhamento psicológico e social pela rede pública
  • Criação de dados estratégicos para formulação de políticas públicas

Caminhos para a proteção

Com a integração ao Observatório do Feminicídio, o painel da SES-RJ reforça o compromisso do estado com o enfrentamento da violência de gênero. O desafio, agora, é transformar esses dados em:

  • Campanhas de prevenção com recorte racial e de gênero
  • Investimentos em abrigos e casas de passagem
  • Ampliação do acesso à justiça e atendimento psicológico
  • Educação para a equidade de gênero desde a infância

Conclusão

O novo painel da Secretaria de Saúde escancara uma realidade já sentida nas periferias, favelas e cidades da Baixada: a juventude feminina negra e parda continua sendo alvo preferencial da violência estrutural brasileira. Transformar esse cenário exige coragem política, investimento público e, acima de tudo, escuta e acolhimento às mulheres.

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