O que seria apenas um atendimento de rotina em uma Clínica da Família no Rio de Janeiro virou um episódio de terror. Após acusar funcionários de furto, uma paciente retornou ao local acompanhada por traficantes armados, que ameaçaram os profissionais. O caso, ocorrido no subúrbio carioca, é apenas um entre os inúmeros episódios que expõem o colapso da segurança pública nas unidades de saúde da cidade.
Somente entre janeiro e meados de setembro de 2025, Clínicas da Família e postos de saúde fecharam 698 vezes por causa da violência armada, segundo dados do programa Acesso Mais Seguro, da Prefeitura do Rio. Isso equivale a quase três fechamentos por dia. O programa, implementado em parceria com a Cruz Vermelha Internacional, estabelece um protocolo de quatro níveis para definir o funcionamento das unidades diante de riscos: verde (normal), amarelo (restrição externa), laranja (fechamento temporário) e vermelho (evacuação total).
Além desses fechamentos, a violência impactou os serviços de saúde 2.683 vezes no mesmo período — média de dez episódios por dia. No pior deles, em 29 de janeiro, uma megaoperação policial no Complexo da Maré impôs risco extremo à população e aos profissionais de saúde.
Barricadas, tiroteios e evacuações
De acordo com relatos obtidos pela imprensa, os trabalhadores de saúde precisam, muitas vezes, se abrigar em corredores internos, longe de janelas e com múltiplas paredes de proteção. Há ocasiões em que as unidades ficam cercadas por barricadas em chamas, tiroteios ou helicópteros da polícia disparando nas redondezas.
A Clínica da Família Herbert de Souza, no entorno do Morro do Juramento, é a campeã em fechamentos. Lá, o som de metralhadoras se tornou rotina, levando funcionários e pacientes a se esconderem em meio aos atendimentos. Em seguida no ranking está o posto Sylvio Frederico Brauner, em Costa Barros. Ambas estão na Zona Norte, onde há intensa disputa entre facções criminosas, como o Comando Vermelho e o Terceiro Comando Puro, responsáveis por 55% dos alertas vermelhos na saúde carioca.
Em uma das ocorrências mais dramáticas, no início de setembro, uma clínica teve que interromper os atendimentos em meio a rajadas de tiros, bombas, entrada de blindados e gás lacrimogêneo. O local abrigava duas gestantes em trabalho de parto, dois idosos em crise hipertensiva e uma criança com convulsão. Sem ambulância, os próprios profissionais improvisaram o transporte até um local seguro.
Saúde sob ameaça direta
O episódio envolvendo traficantes armados após o suposto furto de celular não é um caso isolado. A recente invasão ao Hospital Pedro II, em Santa Cruz, mostra que a ameaça é constante e direta: criminosos com fuzis tentaram assassinar um paciente internado, sem sucesso, mas deixaram um rastro de pânico.
Para o secretário municipal de Saúde, Daniel Soranz, a situação é insustentável:
“Já tivemos que pedir autorização para o traficante abrir a barricada e deixar entrar na unidade. Há unidades alvejadas a bala.”
A resposta do Estado veio apenas após a repercussão na imprensa, segundo nota da Secretaria de Segurança Pública, que afirmou não ter recebido os dados anteriormente. O órgão prometeu investigar e colaborar, embora os registros ainda não constem oficialmente na Polícia Civil.
Impacto humano e psicológico
Profissionais de saúde relatam angústia constante, medo e esgotamento psicológico. Muitos já foram afastados por crises de ansiedade. Uma médica que atua na Zona Norte compara a rotina a de uma zona de guerra:
“Temos que criar uma casca para aguentar, mas não podemos normalizar. Isso gera uma angústia imensa.”
Para Julita Lemgruber, coordenadora do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC), a retomada de territórios dominados por grupos armados é urgente, mas exige articulação:
“A Saúde e a Segurança precisam sentar para conversar. A situação é grave e cotidiana.”
Enquanto a burocracia entre os governos se arrasta, os profissionais de saúde seguem enfrentando armas, barricadas e medo, diariamente. E o direito à saúde — constitucionalmente garantido — permanece, para muitos, atrás de uma trincheira invisível.
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