Criado por lei em 2008, o primeiro museu de percurso da Baixada Fluminense tem suas atividades paralisadas após profissionais da educação serem removidos sem aviso prévio.
Em 2008, fruto das lutas da sociedade civil organizada, de educadores e de pesquisadores comprometidos com a valorização da história local, foi instituído no âmbito da Secretaria Municipal de Educação (SME) o Museu Vivo do São Bento (MVSB) — reconhecido como o primeiro museu de percurso da Baixada Fluminense. A sua criação foi oficializada por meio da Lei Municipal nº 2.224, e, desde então, o ecomuseu tornou-se referência nacional ao integrar memória, meio ambiente, arqueologia e educação.
Localizado na área da antiga Fazenda do Iguaçu, o Museu Vivo do São Bento foi concebido com o propósito de pesquisar, divulgar, valorizar e proteger o patrimônio histórico, arqueológico e ambiental do território. Com base no conceito de museu de percurso, suas atividades educativas e científicas se estruturam a partir de trilhas e visitas guiadas que revelam a pluralidade da história brasileira, especialmente da Baixada Fluminense.
Um território de memórias vivas
Os percursos principais e secundários do Museu Vivo do São Bento revelam um riquíssimo acervo histórico e natural. Entre os pontos mais relevantes está um sítio arqueológico de sambaqui, com datações estimadas entre 4.000 e 6.000 anos antes do presente, e diversas edificações coloniais tombadas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). O museu também abriga projetos de educação patrimonial e ambiental, sendo referência em pesquisas sobre a história e memória da Baixada Fluminense, a cultura afro-brasileira e as injustiças ambientais.
Com uma equipe altamente qualificada, formada por professores pós-graduados, mestres e doutores, o MVSB mantém estreita colaboração com escolas públicas, universidades e movimentos sociais organizados. Por meio dessas parcerias, promove a formação continuada de professores e desenvolve atividades de pesquisa-ação com a comunidade local.
Reconhecimento acadêmico e institucional
O impacto do trabalho desenvolvido pelo MVSB pode ser mensurado não apenas pelas atividades diretas com o território, mas também pela produção científica gerada: teses, dissertações e publicações acadêmicas que passaram a inserir no debate universitário a História do Recôncavo da Guanabara. Esse reconhecimento é ampliado pelo fato de o MVSB ser um Ponto de Memória reconhecido pelo Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM), além de ter sido contemplado no edital “Nossos Museus” da Superintendência Estadual de Museus, com previsão de reforma da sede administrativa.
Desmonte e paralisação das atividades
Apesar dos avanços e conquistas, a trajetória do Museu sofreu um grave revés nas últimas semanas. Enquanto se preparava para iniciar uma nova etapa de escavações em parte inexplorada do sítio escola, e ao mesmo tempo em que aguardava o início da reforma com recursos oriundos de emenda parlamentar, os profissionais lotados no MVSB foram súbita e unilateralmente transferidos da Secretaria Municipal de Educação para a Secretaria Municipal de Cultura de Caxias. A decisão foi tomada sem qualquer diálogo prévio ou justificativa pública, causando uma desestruturação imediata nas atividades do museu.
Todos os educadores envolvidos foram convocados a retornarem ao órgão central da SME para serem realocados em unidades escolares da Rede Municipal. Como consequência, todas as atividades do Museu foram paralisadas — pesquisas, visitas escolares, trilhas, formações e articulações comunitárias ficaram suspensas, sem qualquer previsão de retomada.
Silêncio institucional e denúncia pública
Procurados pelos profissionais, os representantes da SME confirmaram que não há possibilidade de reversão da decisão. A Secretaria de Cultura também ratificou as informações, sem apresentar um plano de continuidade para as ações do MVSB. Tal posicionamento reforça o que os trabalhadores têm denunciado: uma falta de transparência no processo administrativo, e sobretudo uma violação ética quanto à condução da política pública.
A remoção dos profissionais do Museu Vivo do São Bento representa não apenas uma mudança funcional, mas uma desconstrução simbólica de um projeto que mobiliza sentimentos de identidade, pertencimento e valorização da cidadania. Para os envolvidos, o episódio representa uma violência institucional e simbólica, que reduz a importância de anos de dedicação e invisibiliza a relevância histórica do museu.
Um apelo pela preservação da memória e do compromisso público
Diante da atual conjuntura, pesquisadores, educadores e militantes da memória denunciam não só a paralisação das atividades, mas sobretudo o risco de descontinuidade de uma política pública bem-sucedida, fundamentada na valorização do território, da memória social e da educação como instrumentos de emancipação cidadã.
A história do MVSB está profundamente entrelaçada com a construção de uma consciência crítica sobre o passado e o presente da Baixada Fluminense. Sua preservação, portanto, é mais do que um imperativo técnico ou acadêmico: é um compromisso ético com a democracia, com a memória e com os direitos culturais das populações locais.
A comunidade segue mobilizada, exigindo respostas, diálogo e respeito à trajetória do Museu Vivo do São Bento. O silêncio do poder público, neste caso, não é neutro: é parte de uma política de apagamento que precisa ser contestada.
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