Nada mais me surpreende: A denúncia geopolítica e anticolonial da África de Tiken Jah Fakoly

Dia da Mulher Africana

A música Plus Rien Ne M’étonne (“Nada Mais Me Surpreende”), do cantor marfinense Tiken Jah Fakoly, é mais do que uma canção: é um manifesto contundente contra o imperialismo, a exploração neocolonial e as feridas históricas da partilha da África e do mundo por potências ocidentais. Com versos repetitivos, impactantes e uma sonoridade envolvente típica do reggae africano, a canção constrói um grito de denúncia e resistência diante das injustiças geopolíticas perpetuadas há séculos.

Lançada no início dos anos 2000, a música se consolidou como uma das mais emblemáticas da discografia de Tiken Jah Fakoly, artista conhecido internacionalmente por utilizar a arte como ferramenta de luta política, sobretudo no contexto africano e pós-colonial. Cantada em francês, a obra escancara acordos velados e explícitos entre potências globais que instrumentalizam conflitos e riquezas em benefício próprio.

Imagem de capa ilustrativa.

Um jogo de poder e interesses

Logo nos primeiros versos, Fakoly lança a frase que se repete como um mantra: “Dividiram o mundo, nada mais me surpreende”. A partir dela, desenha-se uma crítica feroz à lógica perversa da política internacional, onde territórios, guerras, recursos naturais e vidas humanas são negociados como peças de um tabuleiro de xadrez. Com ironia ácida, ele narra trocas entre países e potências como se fossem acordos banais: “Se você me der o urânio, eu te deixo o alumínio”; “Se você me ajudar a bombardear o Iraque, eu ajeito o Curdistão pra você”.

O artista evidencia, nesse trecho, como interesses econômicos e militares se sobrepõem aos direitos dos povos. Minérios, petróleo, trigo e territórios inteiros são colocados como moeda de troca entre governos que pouco se importam com a soberania e a dignidade das populações locais.

A ferida da partilha da África

O momento mais impactante da música é quando Fakoly volta seu olhar diretamente para o continente africano, lembrando o vergonhoso processo da Partilha da África promovido pelas potências europeias no final do século XIX, sobretudo durante a Conferência de Berlim (1884-1885). “Dividiram a África sem nos consultar, depois se espantam que estamos desunidos”, denuncia o cantor.

A crítica vai além da denúncia colonial e entra nas consequências históricas dessa divisão arbitrária: povos irmãos separados por fronteiras artificiais, conflitos étnicos intensificados por divisões geopolíticas, destruição de impérios e civilizações milenares. Fakoly cita diretamente os impérios Mandinga, Mossi e Sussu como exemplos de territórios despedaçados para atender às ambições coloniais europeias.

Uma indignação que se repete

A força da repetição na música — “Nada mais me surpreende” — não é apenas um recurso poético. É uma marca da resignação crítica diante de uma história que insiste em se repetir. O refrão, repetido dezenas de vezes, torna-se uma espécie de oração laica do desespero e da consciência. Não é mais surpresa que os povos sejam manipulados, que os países sejam invadidos, que as riquezas sejam saqueadas — tudo isso já se tornou parte de um ciclo perverso naturalizado pelo poder global.

Tiken Jah Fakoly: voz da resistência africana

Natural da Costa do Marfim, Tiken Jah Fakoly é uma das vozes mais respeitadas do reggae africano. Sua obra é marcada pelo engajamento político e pela denúncia social, abordando temas como corrupção, pobreza, colonialismo e a luta por liberdade e justiça no continente africano. A música Plus Rien Ne M’étonne é um exemplo notável de sua capacidade de transformar análise geopolítica em arte popular acessível, sem perder profundidade ou potência.

Em tempos em que as disputas globais por recursos continuam a gerar guerras, migrações forçadas e injustiças, a canção segue atual, urgente e necessária.

Tiken Jah Fakoly – Plus Rien Ne M’étonne (Nada Mais Me Surpreende)

Nada mais me surpreende
Plus rien ne m’étonne

Dividiram o mundo
Ils ont partagé le monde

Nada mais me surpreende
Plus rien ne m’étonne

Nada mais me surpreende
Plus rien ne m’étonne

Nada mais me surpreende
Plus rien ne m’étonne


Se você me deixar a Tchetchênia
Si tu me laisses la Tchétchénie

Eu te deixo a Armênia
Moi je te laisse l’Arménie

Se você me deixar o Afeganistão
Si tu me laisses l’Afghanistan

Eu te deixo o Paquistão
Moi je te laisse le Pakistan


Se você não sair do Haiti
Si tu ne quittes pas Haïti

Eu te mando direto pra Bangui
Moi je t’embarque pour Bangui

Se você me ajudar a bombardear o Iraque
Si tu m’aides à bombarder l’Irak

Eu ajeito o Curdistão pra você
Moi je t’arrange le Kurdistan


Dividiram o mundo
Ils ont partagé le monde

Nada mais me surpreende
Plus rien ne m’étonne

Nada mais me surpreende
Plus rien ne m’étonne

Nada mais me surpreende
Plus rien ne m’étonne


Se você me der o urânio
Si tu me laisses l’uranium

Eu te deixo o alumínio
Moi je te laisse l’aluminium

Se você me der seus minérios
Si tu me laisses tes gisements

Eu te ajudo a caçar os Talibãs
Moi je t’aide à chasser les Talibans


Se você me pagar bem em trigo
Si tu me donnes beaucoup de blé

Eu entro na guerra com você
Moi je fais la guerre à tes côtés

Se você deixar eu pegar seu ouro
Si tu me laisses extraire ton or

Eu te ajudo a derrubar o general de novo
Moi je t’aide à mettre le général dehors


Dividiram o mundo
Ils ont partagé le monde

Nada mais me surpreende
Plus rien ne m’étonne

Nada mais me surpreende
Plus rien ne m’étonne

Nada mais me surpreende
Plus rien ne m’étonne


Dividiram a África sem nos consultar
Ils ont partagé l’Afrique sans nous consulter

Depois se espantam que estamos desunidos
Ils s’étonnent que nous soyons désunis


Uma parte do Império Mandinga foi parar com os Wolofs
Une partie de l’empire Mandingue se trouva chez les Wolofs

Uma parte do Império Mossi foi parar em Gana
Une partie de l’empire Mossi se trouva dans le Ghana

Uma parte do Império Sussu foi parar no Império Mandinga
Une partie de l’empire Soussou se trouva dans l’empire Mandingue

Uma parte do Império Mandinga foi parar com os Mossi
Une partie de l’empire Mandingue se trouva chez les Mossi


Dividiram a África sem nos consultar
Ils ont partagé l’Afrique sans nous consulter

Sem nos avisar, ai-ai-ai, sem nos perguntar
Sans nous demander, aïe-aïe-aïe, sans nous aviser


Dividiram o mundo
Ils ont partagé le monde

Nada mais me surpreende
Plus rien ne m’étonne

Nada mais me surpreende
Plus rien ne m’étonne

Nada mais me surpreende
Plus rien ne m’étonne


A música “Plus Rien Ne M’étonne”, do marfinense Tiken Jah Fakoly, é um grito potente contra o colonialismo, os jogos de poder entre nações e a destruição da África sem a consulta de seus povos. Com versos repetitivos e afiados, ele denuncia como guerras, recursos e territórios são negociados por interesses escusos — enquanto os povos sofrem.

Uma canção que continua mais atual do que nunca!

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