“Você não está segura em lugar nenhum?” A frase dita por uma participante do Big Brother Brasil após um caso de assédio dentro do programa ganhou repercussão nacional e escancarou uma verdade incômoda: a violência contra mulheres no Brasil é estrutural, cotidiana e presente em todos os espaços — inclusive nos mais vigiados da TV.
Segundo a 11ª Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, divulgada em 2025, 34% das mulheres brasileiras relataram ter sido vítimas de algum tipo de violência no último ano. O levantamento abrange agressões físicas, morais, psicológicas, patrimoniais, sexuais e digitais. Mesmo com queda em alguns indicadores, o índice revela que mais de um terço das mulheres enfrenta violações recorrentes de seus direitos no país.
O mesmo estudo revela que cerca de 3,7 milhões de mulheres sofreram violência doméstica ou familiar em 2025, reforçando o caráter sistêmico do problema. Esses números mostram que o episódio no reality show não é um caso isolado, mas o reflexo de uma cultura de misoginia e impunidade profundamente enraizada.
Frente ao ocorrido, a ComCausa — organização que atua pela defesa da vida, dos direitos humanos e da igualdade de gênero — emitiu nota de repúdio ao comportamento exibido no programa. A entidade destacou que esse tipo de atitude reforça padrões abusivos e naturalizados na sociedade brasileira.
A ComCausa também reforçou seu compromisso com a iniciativa “Brasil sem Misoginia”, do Ministério das Mulheres, da qual é signatária. O programa já conta com mais de 100 parcerias com governos, empresas, ONGs e movimentos sociais, promovendo ações integradas para combater a violência, o ódio e todas as formas de discriminação contra mulheres. “Repudiamos qualquer forma de assédio, seja em espaços públicos, privados ou na mídia. A violência contra as mulheres é estrutural e precisa ser enfrentada de forma contínua e integrada por toda a sociedade”, declarou a instituição.
A frase dita no confinamento do Big Brother, portanto, traduz o sentimento de milhões de brasileiras que não se sentem protegidas nem mesmo em ambientes teoricamente seguros. O episódio traz à tona a urgência de ações concretas, educativas e punitivas para romper o ciclo da violência de gênero no país.
A ComCausa Defesa da Vida é uma das selecionadas pelo Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA – United Nations Population Fund) em um programa de Fortalecimento Institucional de Organizações da Sociedade Civil para a Aceleração Estratégica da Agenda do Cairo. Entre as quase 200 organizações inscritas, apenas oito foram escolhidas em todo o país – entre elas a ComCausa.
O apoio do UNFPA permitirá à ComCausa estruturar o Núcleo de Masculinidades Positivas para a Defesa da Vida, uma frente permanente da instituição voltada a trabalhar masculinidades não violentas, direitos sexuais e reprodutivos, paternidades cuidadoras e comunicação para mudança social com adolescentes e jovens, especialmente moradores de periferias.
“Mais do que uma ação pontual, trata-se de um investimento no coração da organização, que fortalecerá equipe, processos internos, governança e capacidade de comunicação em temas como saúde e direitos sexuais e reprodutivos, prevenção de violências, educação integral em sexualidade e promoção da igualdade de gênero”, afirma Adriano Dias, autor da proposta e que atuará como coordenador de ações da ComCausa a partir de 2026. Ele destaca que o Núcleo está diretamente alinhado aos temas centrais da Agenda do Cairo.
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