A ComCausa dedicará a edição de 2026 do projeto Nossa Gente Negra ao centenário de nascimento de Milton Santos, um dos mais importantes intelectuais brasileiros e referência mundial nos estudos sobre território, urbanização, globalização e desigualdades sociais.
A homenagem será realizada durante a Semana da Consciência Negra, em novembro, período marcado pelo Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra, celebrado em 20 de novembro. A proposta é reunir memória, valorização da produção intelectual negra e reflexões sobre a atualidade do pensamento de Milton Santos, que completaria 100 anos em 3 de maio de 2026.
Mais do que recordar sua trajetória acadêmica, o Nossa Gente Negra pretende destacar a contribuição de um intelectual negro que transformou a maneira de compreender as cidades, as relações de poder, as desigualdades territoriais e a participação das populações historicamente marginalizadas na construção do futuro.
Cem anos de um brasileiro que transformou a Geografia
Milton Almeida dos Santos nasceu em 3 de maio de 1926, em Brotas de Macaúbas, na Bahia. Formou-se em Direito pela Universidade Federal da Bahia, mas encontrou na Geografia o principal campo de sua produção intelectual. Em 1958, concluiu seu doutorado em Geografia na Universidade de Estrasburgo, na França. Também trabalhou como jornalista no jornal A Tarde, em Salvador, experiência que contribuiu para seu olhar atento às transformações sociais, econômicas e políticas do país.
Após o golpe militar de 1964, Milton Santos foi perseguido pela ditadura e passou anos fora do Brasil. Durante o exílio, lecionou e desenvolveu pesquisas em instituições da Europa, África e das Américas, ampliando sua compreensão sobre as desigualdades entre países e sobre a organização econômica mundial. De volta ao Brasil, consolidou sua trajetória acadêmica na Universidade de São Paulo, onde formou gerações de pesquisadores e contribuiu para transformar profundamente o pensamento geográfico brasileiro.
Em 1994, recebeu o Prêmio Internacional de Geografia Vautrin Lud, considerado uma das principais distinções mundiais da Geografia e frequentemente comparado ao Nobel da área. Milton Santos tornou-se o primeiro latino-americano a conquistar o reconhecimento.
A Geografia como instrumento de transformação social
Uma das grandes contribuições de Milton Santos foi demonstrar que o espaço geográfico não deve ser compreendido apenas por elementos físicos, mapas ou fronteiras. Para ele, território, sociedade, economia, tecnologia, política e relações humanas estão profundamente conectados. Dessa maneira, a própria organização das cidades ajuda a revelar as desigualdades existentes dentro da sociedade.
Sua obra contribuiu para explicar por que determinados grupos e regiões concentram infraestrutura, serviços públicos, transporte, equipamentos culturais e oportunidades econômicas, enquanto outros convivem historicamente com maiores dificuldades de acesso aos direitos. Essa perspectiva permanece especialmente importante para compreender a realidade das periferias brasileiras.
Na Região Metropolitana do Rio de Janeiro e na Baixada Fluminense, por exemplo, diferenças territoriais aparecem diariamente nas condições de mobilidade, saneamento, acesso à saúde, educação, cultura, segurança e oportunidades de trabalho. A reflexão de Milton Santos ajuda a demonstrar que essas desigualdades não são naturais nem inevitáveis. Elas são resultado de processos históricos, decisões políticas, relações econômicas e diferentes formas de organização do território.
Ao mesmo tempo, seu pensamento permite reconhecer as periferias para além das ausências. Esses territórios também são espaços de criatividade, trabalho, solidariedade, conhecimento, produção cultural, resistência e construção de alternativas sociais.
Um intelectual negro diante das contradições do Brasil
A trajetória de Milton Santos também ocupa lugar fundamental na valorização da produção científica e intelectual da população negra brasileira. Em uma sociedade profundamente marcada pela escravidão e pelo racismo estrutural, sua presença entre os grandes pensadores do século XX rompeu barreiras históricas que limitaram o reconhecimento de pesquisadores, professores e intelectuais negros.
Ao celebrar seu centenário durante a Semana da Consciência Negra, a ComCausa pretende aproximar sua trajetória de novas gerações, especialmente jovens de territórios populares que nem sempre encontram referências negras devidamente valorizadas nos espaços tradicionais de educação e memória. A homenagem reforça ainda uma dimensão essencial da luta pela igualdade racial: reconhecer que a história negra brasileira não é formada apenas pela resistência ao racismo e às violências. É também uma história de ciência, educação, filosofia, cultura, inovação, conhecimento e pensamento crítico.
Por uma outra globalização
Entre as obras mais conhecidas de Milton Santos está Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal, publicada em 2000. No livro, o autor apresenta uma análise crítica do modelo dominante de globalização, questionando a concentração econômica, o poder das grandes corporações e a distribuição desigual dos benefícios produzidos pelo desenvolvimento tecnológico e econômico. A obra também está disponível na página da Editora Record, responsável por sua publicação no Brasil. Milton Santos rejeitava a ideia de que existisse apenas um caminho possível para a humanidade. Sua reflexão aponta para outra globalização, baseada na solidariedade, na diversidade cultural, na participação dos povos e na valorização das necessidades humanas.
Mais de duas décadas depois, essas reflexões continuam atuais diante do avanço das desigualdades, das transformações tecnológicas, das migrações, dos conflitos internacionais e da concentração de riqueza e poder. Para Milton Santos, países periféricos e populações historicamente excluídas não deveriam permanecer como espectadores das decisões tomadas pelos grandes centros de poder mundial. Também possuem capacidade de produzir conhecimento, criar alternativas e participar da construção da história.
A voz de Milton Santos ganha nova força no rock brasileiro
Um exemplo recente da permanência de seu pensamento na cultura contemporânea está no álbum Continental, lançado em agosto de 2026 pela banda brasileira Black Pantera. Formado por Charles Gama, Chaene da Gama e Rodrigo “Pancho” Augusto, o trio incorporou à faixa-título do trabalho um registro da voz de Milton Santos, estabelecendo um encontro entre reflexão intelectual, música e cultura negra brasileira. A presença da gravação de Milton Santos no álbum também foi destacada pela Billboard Brasil.
Na gravação utilizada pelo grupo, o geógrafo questiona a ideia de que a história mundial deva continuar sendo conduzida exclusivamente pelas grandes potências econômicas e aponta para o protagonismo dos países pobres e periféricos na construção do futuro. A presença de sua voz transforma a música em uma ponte entre gerações. De um lado, está o intelectual que analisou profundamente as contradições do capitalismo globalizado. Do outro, uma banda negra brasileira que utiliza rock, metal e punk para abordar racismo, colonialismo, identidade, pertencimento e resistência.
A homenagem do Black Pantera demonstra que as ideias de Milton Santos ultrapassam os limites da universidade. Permanecem vivas na música, na cultura de rua, nas juventudes e nas manifestações artísticas que questionam as desigualdades do presente.
Nossa Gente Negra preserva memória e constrói futuro
Ao escolher Milton Santos como personagem central da edição de 2026, o Nossa Gente Negra reafirma o compromisso da ComCausa com a igualdade racial, os direitos humanos, a preservação da memória, a valorização da cultura e o fortalecimento da participação social. O centenário também oferece uma oportunidade de aproximar sua obra das realidades dos territórios onde a ComCausa desenvolve suas ações, especialmente no Rio de Janeiro, em Nova Iguaçu e nos demais municípios da Baixada Fluminense.
Desigualdade territorial, mobilidade urbana, acesso aos direitos, organização das cidades, produção cultural e participação das periferias são questões presentes tanto na obra de Milton Santos quanto no cotidiano de milhões de moradores das regiões metropolitanas brasileiras. A homenagem pretende contribuir ainda para ampliar o acesso ao pensamento do geógrafo entre estudantes, jovens, comunicadores, artistas, educadores, agentes culturais e integrantes de movimentos e organizações sociais.
Milton Santos morreu em 24 de junho de 2001, aos 75 anos, deixando uma vasta produção intelectual. Seu legado continua sendo estudado e celebrado no Brasil e no exterior. Em 2026, seu centenário mobiliza universidades, pesquisadores e instituições culturais. A Universidade de São Paulo realizou um seminário internacional dedicado aos 100 anos de Milton Santos, reunindo pesquisadores brasileiros e estrangeiros para discutir sua trajetória, sua produção intelectual e a atualidade de seu pensamento.
O centenário como compromisso com o futuro
Para a ComCausa, celebrar Milton Santos durante a Semana da Consciência Negra significa reconhecer que a contribuição da população negra para o Brasil também se manifesta na produção de conhecimento capaz de interpretar e transformar a sociedade. O centenário não representa apenas uma homenagem ao passado. É uma oportunidade para discutir que cidades queremos construir, como os direitos são distribuídos pelo território e qual será o papel das periferias e das novas gerações na construção de uma sociedade mais democrática e menos desigual. Cem anos depois de seu nascimento, Milton Santos permanece como referência para compreender que território e cidadania estão profundamente ligados.
Conhecer sua obra é também compreender que transformar desigualdades exige reconhecer os territórios, seus moradores e a capacidade das populações de participar ativamente da construção de seu próprio futuro.
Nossa Gente Negra da ComCausa 2026 — Milton Santos 100 anos: o território a dignidade e o direito de construir o futuro.
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