A Reserva Biológica do Tinguá celebra mais um ano de existência oficial — uma trajetória que vai muito além de datas e decretos. Criada em 23 de maio de 1989, pelo Decreto nº 97.780 assinado pelo então presidente José Sarney, a REBIO-Tinguá representa hoje um dos mais importantes patrimônios ambientais da Mata Atlântica, com 26.260 hectares distribuídos por seis municípios fluminenses. Mais do que um território protegido, é o coração verde que pulsa entre o passado imperial, a luta popular e os desafios do presente.
A história do Tinguá começa antes da criação da reserva. Em 1880, o engenheiro Paulo de Frontin conduziu as águas do Rio d’Ouro até a então capital do Brasil, o Rio de Janeiro, revelando o valor estratégico da serra para o abastecimento hídrico da cidade. Desde então, a região passou a ser vista não apenas como fonte de água, mas também como patrimônio natural, social e científico de valor inestimável.
Na década de 1940, Getúlio Vargas reconheceu parte desse valor ao instituir a Floresta Protetora da União de Tinguá. Mas foi só nas décadas de 1970 e 1980 que a mobilização popular — com destaque para escoteiros, paróquias, universidades e movimentos de bairro — começou a construir o que se tornaria o embrião da REBIO. Em 1987, um plebiscito comunitário decidiu, por maioria de votos, que a melhor forma de proteger a serra seria como reserva biológica, impedindo o uso urbano e econômico predatório. Do clamor popular nasceu a política pública. Em 1989, o decreto presidencial consolidou a criação da Reserva Biológica do Tinguá, proibindo atividades como caça, mineração, loteamento e turismo de massa. A gestão da unidade foi inicialmente delegada ao IBAMA, e hoje está sob a responsabilidade do ICMBio.
Reconhecimento mundial e papel ecológico estratégico
Em 1992, a UNESCO reconheceu a área como parte da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica, reafirmando sua importância ecológica planetária. Cientistas da UFRRJ, Fiocruz, Jardim Botânico e outras instituições passaram a investigar sua fauna e flora: desde primatas raros e suçuranas até epífitas de altitudes superiores a 1.200 metros. As nascentes dos rios d’Ouro, Capivari, Xerém e São Pedro, localizadas dentro da unidade, abastecem diretamente cerca de dois milhões de pessoas na Baixada Fluminense e na Zona Norte do Rio. A floresta também contribui com a regulação do clima, absorvendo até 200 mil toneladas de CO₂ por ano, e atua como corredor genético entre importantes áreas protegidas do estado.
Luta permanente contra retrocessos
Apesar das conquistas, a REBIO-Tinguá ainda enfrenta desafios significativos. Entre eles estão a caça ilegal, o despejo clandestino de resíduos e a especulação imobiliária. Em 2021, o fechamento de um posto de fiscalização provocou uma onda de mobilizações virtuais com a hashtag #SalveTinguá, forçando o governo federal a reativar o serviço. Mas as ameaças persistem — e a vigilância da sociedade também. Iniciativas como o Projeto Monitora Rios e o coletivo Juventude Verde de Tinguá mostram que a resistência se reinventa. Entre 2023 e 2024, 130 hectares foram reflorestados com espécies nativas, e adolescentes passaram a monitorar a qualidade da água com equipamentos de baixo custo. A juventude, mais uma vez, ocupa a linha de frente na proteção do futuro.
Um futuro de compromissos e memória
Amparada pela Constituição Federal (art. 225), inserida no Sistema Nacional de Unidades de Conservação (Lei 9.985/2000) e reconhecida pela UNESCO, a Reserva Biológica do Tinguá carrega um legado de resistência que não se esgota nas leis. Ela é sustentada por trilhas de fé, atos legislativos, marchas comunitárias, aulas ao ar livre, campanhas digitais e vigílias silenciosas em defesa do verde.
Se o aniversário de 36 anos é motivo de comemoração, também é chamado à responsabilidade: manter a serra viva depende de ação contínua, investimento público e mobilização social. Porque, como afirmam os guardiões do território, “a Serra do Tinguá não é apenas uma paisagem: é um pacto intergeracional pela defesa da vida”.
Segundo o ex-chefe da Rebio do Tinguá, Flávio Silva, falecido em 2016: “Se REBIO acabasse a sociedade estaria perdendo muito, tanto em termos dos recursos hídricos quanto em termos da biodiversidade. A Rebio é responsável por proteger espécies ameaçadas como o muriqui, a onça parda, e algumas espécies de ipês, por exemplo”, destacou.
História
A Rebio Tinguá tem sua história diretamente ligada a da cidade do Rio de Janeiro, e ao processo de crescimento da Baixada Fluminense, muito por conta dos mananciais hídricos de Serra Velha, Boa Esperança e Bacurubu, que até hoje contribuem para o abastecimento de água para boa parte da Baixada Fluminense. As nascentes desses mananciais, nas antigas fazendas da Conceição, Tabuleiro e Provedor, estão até hoje bem conservadas e motivaram o primeiro ato de proteção do lugar, assinado por D. Pedro II. Em 1883, o Imperador decretou que todas as áreas ocupadas pelas referidas fazendas seriam consideradas, a partir de então, florestas protetoras. A primeira foi incorporada à União por meio de doação feita por Francisco Pinto Duarte, o Barão de Tinguá, e as outras duas adquiridas por desapropriação.
A área da reserva compreende 26 mil hectares de Mata Atlântica, fazendo limites com Nova Iguaçu, Duque de Caxias, Petrópolis e Miguel Pereira. Importante bacia produtora de água potável, desde os tempos do Império, ela segue protegendo amostras representativas da Mata Atlântica e demais recursos naturais nela contidos, com especial atenção para os recursos hídricos.
Ameaças Recorrentes
Parte das ameaças à Rebio do Tinguá são ações ilegais de caçadores que matam animais silvestres para vender suas carnes. Além deles, existem palmiteiros, ladrões de areia, pedreiras clandestinas, passarinheiros e carvoeiros que contribuem para a destruição da flora e fauna locais. Agentes de fiscalização da reserva promoveram, dia 31 de julho, um sobrevoo com o objetivo de monitorar pontos de supressão de vegetação no interior da Rebio e construção de novas residências. A operação contou com a parceria com Petrobras (que cedeu o helicóptero), da Delegacia da Polícia Federal em Nova Iguaçu (DPF-NI) e da Companhia Independente de Proteção Ambiental (Cipam).
Seis agentes de fiscalização caminharam por trilhas abertas na floresta, constataram irregularidades e apreenderam aves e instrumentos de captura em uma das residências recém-construídas ilegalmente. O morador deixou a casa aberta e os animais à vista, na área de serviço interna do imóvel. A equipe constatou, ainda áreas desmatadas, corte de árvores no interior da reserva e um descampado aberto provavelmente recentemente. Outra irregularidade encontrada foi uma área já limpa e com movimentação de solo e indícios de uso de fogo no interior da Rebio. Ao todo, segundo último levantamento feito na reserva, existem 350 famílias morando no interior da Rebio do Tinguá, que possui titularidade de sua terra toda regularizada.
A urbanização do entorno e suas decorrências como o lixo, as descargas orgânicas, o assoreamento e a erosão das margens dos corpos hídricos e as atividades de lazer (com barramentos artificiais nos rios e cachoeiras) estão exigindo demais dos recursos ambientais já pressionados.
Curiosidade
A reserva do Tinguá possui um Kaiju ; em ‘Godzilla: Rei dos Monstros’, Behemoth é contido e monitorado no Monarch Outpost 58, em uma caverna no Rio de Janeiro, na Reserva do Tinguá, Brasil. Designado “Titanus Behemoth” (embora seja conhecido pelos habitantes locais como Mapinguari), seu arquivo é examinado brevemente pelo personagem Mark Russell.
Datas e marcos históricos da REBIO do Tinguá
A Reserva Biológica do Tinguá (REBIO do Tinguá) é uma unidade de conservação federal situada no estado do Rio de Janeiro, criada com o objetivo de preservar remanescentes da Mata Atlântica e proteger importantes mananciais hídricos que abastecem a Baixada Fluminense. A seguir, apresento as principais datas e marcos históricos relacionados à reserva:
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1880: Durante o Império, foi inaugurada uma rede de captação de água que levou, em poucas semanas, a água das nascentes de Rio d’Ouro, Xerém e Tinguá até a capital, o Rio de Janeiro, que padecia de uma enorme seca provocada pelo desmatamento da Floresta da Tijuca. O engenheiro Paulo de Frontin foi o responsável por essa façanha, realizada pelo braço escravo.
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1941: O governo de Getúlio Vargas criou a Floresta Protetora da União Tinguá, Xerém e Mantiqueira, visando à proteção integral dos recursos hídricos da região.
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23 de maio de 1989: A Reserva Biológica do Tinguá foi oficialmente criada pelo Decreto Federal nº 97.780, com o objetivo de proteger uma amostra representativa da Floresta de Encosta Atlântica, sua flora, fauna e, especialmente, seus recursos hídricos.
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1991: A reserva foi reconhecida pela UNESCO como parte da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica, destacando sua importância ecológica em âmbito internacional.
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2002: Foi instituído o Conselho Consultivo da REBIO do Tinguá, por meio da Portaria nº 100, com a finalidade de contribuir para o planejamento e a gestão participativa da unidade.
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2006: Aprovação do Plano de Manejo da reserva, estabelecendo diretrizes para a conservação e o uso sustentável dos recursos naturais da área.
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2024: Lançamento de uma nova logomarca em comemoração aos 35 anos da REBIO do Tinguá, reforçando a identidade visual e o compromisso com a conservação ambiental.
A REBIO do Tinguá abrange uma área de aproximadamente 26.260 hectares, distribuída entre os municípios de Nova Iguaçu, Duque de Caxias, Miguel Pereira e Petrópolis. A gestão da reserva é responsabilidade do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).
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