Café no Ponto Literário propõe que a Livraria Córdula se torne um fórum vivo de literatura periférica e memória

Córdula Livraria

As portas de vidro da Livraria Córdula se abriram neste 5 de setembro, e o que poderia ter sido apenas mais uma tarde comum no Centro de São João de Meriti logo se transformou em uma experiência singular para a cultura da Baixada Fluminense. O segundo andar da Galeria Ponto do Cidadão, espaço que abriga a livraria, foi tomado por leitores, educadores, escritores, ativistas e pesquisadores que atenderam ao chamado para participar do Café no Ponto Literário, uma iniciativa realizada em parceria com a ComCausa – Defesa da Vida. O que se seguiu foi uma tarde marcada pela escuta atenta, pela partilha de saberes e pela construção de um horizonte coletivo em torno da literatura, da memória e da identidade cultural da periferia.

A história da Livraria Córdula ajuda a dimensionar o significado desse encontro. Criada em 2023 como projeto itinerante, a Córdula nasceu com o propósito de levar livros a praças, feiras e encontros comunitários, numa prática que resgatava o espírito dos antigos pregões populares, mas transformados em itinerância literária. Em cada parada, plantava a semente da leitura e conquistava reconhecimento em diferentes localidades da Baixada Fluminense, reforçando a ideia de que a circulação de livros é, por si só, um ato de afirmação cultural e cidadania. Esse percurso inicial culminou em 2024, quando o projeto alcançou um marco fundamental ao se estabelecer definitivamente na Rua Manoel Marcelo Nunes, nº 55. A partir daí, a Córdula deixou de ser apenas um ponto de comercialização de livros para se afirmar como território de resistência, permanência cultural e criação coletiva.

Um nome que preserva memória e inspira resistência

O próprio nome da livraria já carrega um gesto político e simbólico: ao homenagear a cordelista Córdula Ferreira, voz poética da Baixada e símbolo da expressão feminina periférica, o espaço inscreve em sua identidade a memória da literatura popular. Mais do que reverência a uma figura histórica, a escolha afirma a literatura de cordel, a oralidade e a poesia como fundamentos da vida cultural da região. Assim, desde sua fundação, a livraria proclama que cada livro, cada história, cada palavra tem raiz em um chão de luta e memória coletiva.

Reconhecimento nacional e a quebra de estigmas

Sob a liderança de Diogo Santana, a Córdula alcançou em 2025 uma conquista inédita: foi premiada como “Melhor Livreiro do Ano” no Prêmio PublishNews Catavento, uma das distinções mais relevantes do mercado editorial brasileiro. O reconhecimento representou mais do que um título; foi um marco histórico. Pela primeira vez, uma livraria da Baixada Fluminense alcançava visibilidade em escala nacional, rompendo estigmas e reafirmando que o território não apenas lê, mas também produz, cria e resiste. Ao colocar a Baixada no mapa cultural do país, a premiação abriu caminhos para que a produção literária da região fosse reconhecida como parte legítima do circuito editorial brasileiro.

O espaço convertido em auditório popular

A atmosfera do Café no Ponto Literário refletia essa trajetória de luta e afirmação. As estantes abarrotadas de livros, os cadernos abertos em mesas improvisadas e as cadeiras dispostas em roda conferiram à livraria ares de auditório popular. Não se tratava de um evento formal, mas de uma experiência viva de construção coletiva. As falas, memórias e projetos se entrelaçavam como capítulos de uma narrativa comum, transformando o espaço em fórum público no qual a periferia se reconhecia e se afirmava como centro legítimo de produção cultural.

A pergunta que norteou o encontro

A provocação lançada ao público foi direta: como reposicionar a literatura nos territórios populares? A questão deslocou o debate para além da simples circulação de livros, apontando para o desafio estrutural de assegurar permanência, difusão e reconhecimento institucional à produção literária que já existe, mas que tantas vezes permanece invisibilizada. A resposta coletiva emergiu sem hesitação: o território já escreve, já resiste, já inventa. O que falta são políticas públicas e iniciativas de valorização que assegurem permanência e difusão dessa produção.

A palavra como manifesto de vida

O fundador da ComCausa, Adriano Dias, registrou em suas redes sociais o espírito do encontro com palavras que se tornaram quase um manifesto: “A palavra transforma realidades. A que nasce nas vielas, nos trens, nas escolas públicas e nas redes de afeto da Baixada não é apenas estética: é ferramenta política, memória coletiva e construção de sentido.” Essa afirmação reforça que a literatura, quando enraizada na periferia, transcende a condição de prática cultural e se converte em ato de resistência, de afirmação identitária e de defesa da vida.

Pesquisas, rezadeiras e memória religiosa

Entre os pontos altos da roda de conversa, destacou-se a participação da doutoranda Andrea Da Luz, da UFRJ, que apresentou sua pesquisa sobre os processos de resistência das rezadeiras de tradição no Brasil, com foco na trajetória dessas mulheres em São João de Meriti. Em sua fala, Andrea ressaltou como essas mulheres, geração após geração, sustentaram práticas de cuidado e espiritualidade mesmo diante da perseguição, reafirmando o direito de exercer a fé popular e de transmitir saberes historicamente silenciados. Ela fez questão de destacar a contribuição de suas orientadoras, Claudia Reinoso e Samira Lima, reconhecendo a importância do apoio acadêmico e institucional para o desenvolvimento da pesquisa.

Mais do que análise acadêmica, sua fala transformou-se em agenda de ação. Foi firmada a decisão de que a ComCausa e a Livraria Córdula se tornarão parceiras da pesquisa, colaborando para ampliar seus desdobramentos e garantir que a comunidade tenha acesso a essa memória invisibilizada. O compromisso é tornar essa investigação não apenas um trabalho de universidade, mas também uma ferramenta de reflexão pública sobre memória, direitos humanos e diversidade religiosa, inserindo a Baixada no mapa de produções intelectuais que reconhecem o protagonismo das mulheres populares.

O saldo do encontro foi inequívoco: o Café no Ponto Literário não é apenas mais um evento pontual no calendário cultural da Baixada, mas o início de um processo coletivo e um compromisso público com a literatura, a memória e a identidade do território. Mais do que celebrar livros, trata-se de afirmar a leitura como direito, como resistência e como prática cotidiana de defesa da vida.

Do encontro à política permanente

A tarde não terminou como simples evento isolado. Ao contrário, transformou-se em compromisso coletivo. A ComCausa e a Livraria Córdula anunciaram que o Café no Ponto Literário se tornará um programa contínuo de debates, rodas de leitura e oficinas, com calendário permanente e integração direta às redes de ensino. O objetivo é aproximar escolas do circuito do livro, encurtando distâncias entre a educação formal e a efervescência cultural do território. Assim, a Córdula se projeta como polo irradiador de debates literários para toda a Baixada Fluminense, conectando práticas escolares, produção cultural e engajamento comunitário.

Programação de setembro

Para dar sequência imediata ao processo, três atividades já foram confirmadas para este mês:

  • Sábado, 06/09 — Maurício Melo Júnior: escritor, jornalista cultural e apresentador do programa Leituras da TV Senado, no ar desde 2001. Responsável por documentários e entrevistas, trará reflexões sobre mediação de leitura em canais públicos e estratégias para ampliar o alcance da literatura em territórios populares.
  • Sábado, 20/09 — Ana Lima Cecilio, Suzana Vargas e Valéria Martins: Ana Lima Cecilio, editora e curadora da FLIP, responsável por trazer a obra de Elena Ferrante ao Brasil; Suzana Vargas, poeta, ensaísta e fundadora do Instituto Estação das Letras; Valéria Martins, jornalista e agente literária com passagens por grandes editoras, hoje à frente da Oasys Cultural. O encontro terá como tema “Da escrita à prateleira”, abordando curadoria, agenciamento, formação de leitores e sustentabilidade do livro independente.
  • Sábado, 27/09 — Marcelino Freire: escritor pernambucano, autor de Angu de Sangue e Contos Negreiros (Prêmio Jabuti 2006), idealizador da Balada Literária. Debaterá oralidade, periferia e invenção, explorando como o conto encontra a rua, o palco e a escola.

Serviço

Local: Livraria Córdula — Rua Manoel Marcelo Nunes, nº 55, Loja 210, Centro de São João de Meriti (RJ)
Datas: 06, 20 e 27 de setembro de 2025, sempre aos sábados à tarde
Redes sociais: @livraria.cordula

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