Encontrado ferido e desconfiado nas dependências do batalhão da Ilha do Governador, o vira-lata caramelo ganhou uma família, uma “carreira” na Polícia Militar e conquistou centenas de milhares de seguidores nas redes sociais
Essa semana, a ComCausa – acompanhado do Pretinho, cachorrinho que, como Oliveira, também foi adotado – esteve no 17º Batalhão na Ilha do Governador para conhecer pessoalmente o Cabo Oliveira, e seus principais cuidadores. No encontro, fomos recebidos pelo policial militar Cristiano Oliveira que cuida da rotina divertida nas redes do cãozinho, mostrando que como pequenos gestos podemos, mesmo sendo um animal como personagem, humanizar os trabalhadores da área de segurança. Sendo essa, uma iniciativa que pode ser replicada por vários outros setores, pois além de tudo, promove também o gesto da adoção responsável de animais.
A história começou de maneira simples, sem planejamento, campanha ou estratégia de comunicação. Um cachorro sem raça definida, daqueles que o Brasil aprendeu carinhosamente a chamar de vira-lata caramelo, apareceu nas dependências do 17º Batalhão na Ilha do Governadoe (17º BPM), na Ilha do Governador, debilitado, com uma das patas machucadas e demonstrando muito medo das pessoas.
As referências disponíveis divergem entre o fim de 2018 e 2019 sobre a data exata da chegada do animal ao batalhão. O que se repete nos diferentes relatos é que Oliveira estava ferido, acuado, com fome e bastante desconfiado quando encontrou o policial militar Cristiano Oliveira Gonçalves, que insistiu em se aproximar, oferecendo água, comida e cuidado. Aos poucos, a resistência deu lugar à confiança.
O cachorro começou a acompanhar Cristiano pelos corredores do batalhão. Outros policiais também passaram a alimentá-lo, protegê-lo e tratá-lo como parte da rotina da unidade. O que poderia ter sido apenas uma passagem de um animal abandonado acabou se transformando em uma adoção e, depois, em um fenômeno de comunicação.
Em determinado plantão, Cristiano encontrou uma antiga peça de farda e resolveu colocá-la em Oliveira. A fotografia do cachorro uniformizado circulou entre os policiais e fez sucesso imediatamente. Surgia ali, quase por acaso, o personagem que ficaria conhecido em todo o país como Cabo Oliveira.
A brincadeira cresceu. Vieram a farda adaptada, distintivos, colete, acessórios, fotografias junto às viaturas e vídeos nos diferentes setores do batalhão. Oliveira passou a aparecer nas redes como se realmente cumprisse escalas, participasse de reuniões, fiscalizasse o serviço e reclamasse dos plantões. O humor transformou a rotina de um quartel em conteúdo acessível a pessoas que muitas vezes nunca haviam entrado em uma unidade policial.
É importante destacar que Oliveira não é um cão policial operacional nem recebeu treinamento para participar de operações. Sua função é a de mascote, personagem de comunicação e companheiro dos profissionais da unidade.
De cachorro abandonado a fenômeno das redes
Com o perfil @Oliveira17bpm, o antigo cachorro de rua tornou-se uma das figuras animais mais conhecidas ligadas a uma instituição pública no Rio de Janeiro. Em 2021, já reunia milhares de seguidores. Em outubro de 2022, havia ultrapassado a marca de 100 mil pessoas acompanhando sua rotina. Em 2024, quando recebeu uma nova “promoção”, seu perfil já ultrapassava 260 mil seguidores.
O crescimento não aconteceu apenas pela aparência carismática do vira-lata. A linguagem adotada nas publicações ajudou a criar uma personalidade própria. As legendas brincam com palavras como “policiAU”, “pessuau” e outras expressões relacionadas ao universo canino, enquanto Oliveira aparece em corredores, viaturas, motocicletas ou ao lado dos policiais.
Essa comunicação também acabou ganhando uma dimensão de interesse público. A imagem do mascote já foi utilizada para chamar atenção para temas relacionados à proteção animal, incluindo mensagens contra a captura de animais silvestres e mobilizações de doação de ração para animais atingidos pelas enchentes no Rio Grande do Sul.
A experiência chegou inclusive a ser destacada em publicação sobre comunicação pública nas redes sociais, justamente pela capacidade de utilizar um personagem próximo e bem-humorado para apresentar uma instituição pública a públicos que normalmente não acompanhariam aquele tipo de conteúdo.
ComCausa e Pretinho visitaram Oliveira
Essa história também cruzou o caminho da ComCausa – Defesa da Vida. A organização esteve no 17º BPM, na Ilha do Governador, acompanhada de Pretinho, outro cachorro que também teve sua trajetória transformada pela adoção, para conhecer Oliveira e conversar com alguns dos policiais responsáveis por seus cuidados e por sua presença nas redes sociais.
No encontro, a equipe foi recebida por Cristiano Oliveira, responsável direto pela construção da personalidade divertida do mascote nas plataformas digitais.
A visita permitiu observar como uma iniciativa aparentemente simples pode produzir diferentes impactos. De um lado, estimula a mensagem da adoção responsável e do cuidado com animais abandonados. De outro, permite apresentar de maneira mais humana os profissionais que trabalham diariamente em estruturas que, para grande parte da população, costumam ser conhecidas apenas em situações de conflito, emergência ou violência.
Oliveira não apaga os debates necessários sobre segurança pública, direitos humanos ou a relação entre instituições policiais e a sociedade. Mas sua história demonstra que também existe espaço para construir outras formas de comunicação institucional, capazes de apresentar pessoas, afetos, responsabilidades e iniciativas positivas existentes dentro das corporações.
Cristiano defendeu justamente que experiências semelhantes podem ser adotadas por outras instituições:
“Vários outros órgãos também têm animais adotados participando do dia a dia de maneira divertida. Acredito que essa iniciativa pode ser replicada.”
Um caramelo que virou símbolo
A trajetória do Sargento Oliveira reúne elementos muito brasileiros: um vira-lata caramelo, o improviso de uma primeira fotografia, o humor das redes sociais e, principalmente, uma história de abandono que terminou em adoção. O cachorro que um dia não permitia que ninguém chegasse perto passou a circular entre policiais, receber visitantes e ser acompanhado por centenas de milhares de pessoas.
No meio de fardas, escalas, viaturas e brincadeiras, talvez esteja justamente aí o aspecto mais significativo de sua história: antes de virar Cabo, Sargento ou celebridade da internet, Oliveira ganhou algo muito mais importante — um lugar onde passou a ser cuidado e reconhecido como parte de uma comunidade.
E para um animal que chegou ferido e assustado à porta de um batalhão, essa continua sendo a maior promoção de todas.
Adote, cuide e proteja. Um vira-lata pode estar esperando por você.
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