Em janeiro, a ComCausa Defesa da Vida já havia tornado pública uma posição que agora ganha ainda mais nitidez no debate sobre saúde: defender a vida nas favelas e periferias do Rio de Janeiro exige tratar dignidade, segurança e cuidado como eixo prático e político do território. A campanha #FavelaVida foi apresentada como linguagem direta para sustentar uma tese essencial — a vida da favela é vida plena, com direitos — e a organização passou a estruturar seu acompanhamento territorial por três frentes permanentes: #FavelaVida, #BaixadaViva e #SomosUmRio.
É nesse contexto que o Dia Estadual de Saúde nas Favelas, realizado na terça-feira, 10 de fevereiro, no Museu de Favela (MUF), no Complexo Cantagalo, Pavão e Pavãozinho, se consolidou como um ponto de convergência: organizações comunitárias, coletivos e parceiros se reuniram para escuta, troca de experiências e construção coletiva dentro da programação coordenada pelo Plano Integrado de Saúde nas Favelas do Rio de Janeiro, iniciativa vinculada à Fiocruz que articula organizações sociais, universidades e coletivos em diferentes regiões do estado, segundo os organizadores.
Cuidados e Defesa da Vida nas periferias e favelas: ComCausa afirma princípios para 2026
Um encontro que foi recado político
Mais do que uma agenda simbólica, o encontro funcionou como recado público: uma saúde que se diz universal não pode existir como promessa abstrata, distante do território onde a vida acontece. A avaliação compartilhada no MUF foi objetiva: quando o poder público não reconhece as formas de cuidado que já sustentam as favelas, tende a repetir um modelo que chega tarde, fragmentado e sem vínculo com a realidade concreta.
Nesse sentido, o evento reafirmou uma ideia que vem ganhando força: o cuidado nas favelas já ocorre de forma coletiva e cotidiana e precisa ser tratado como parte estruturante da saúde pública — não como exceção. Para participantes, essas redes operam como proteção social e sanitária em tempo real, articulando solidariedade e respostas imediatas diante das desigualdades.
Do serviço ao cuidado: o território como referência
Ao reunir organizações para compartilhar práticas e definir prioridades, o encontro reforçou que saúde não se limita a serviços formais. O que está em disputa, segundo as falas no MUF, é o reposicionamento do território: práticas sociais que garantem continuidade, acolhimento e sobrevivência precisam orientar planejamento, investimento e organização do SUS.
A pergunta devolvida ao poder público, de modo direto, é a mesma que atravessa o debate: como o Estado se relaciona com o cuidado que já existe, em vez de agir como se ele não existisse?
A ComCausa no MUF: cuidado como sobrevivência e política pública
A ComCausa esteve presente e foi representada por Adriano Dias, que resumiu o sentido do encontro: quando a favela fala de cuidado, fala de sobrevivência e de política pública ao mesmo tempo. Na avaliação apresentada, o que se faz no território é “saúde em movimento”, mas isso precisa ser reconhecido, apoiado e integrado às políticas do Estado. A presença da ComCausa no MUFse conecta à linha já apresentada em janeiro: o cuidado não pode ser tratado como improviso nem como favor. Precisa entrar na engrenagem pública como método de continuidade, com responsabilidade institucional e capacidade real de resposta onde a vida acontece.
Visibilidade é condição para orçamento e prioridade
A discussão apontou que dar visibilidade às redes de cuidado não é apenas reconhecimento simbólico. É condição material para entrar no planejamento, orientar orçamento e virar prioridade contínua. A lógica exposta no encontro foi direta: o que não aparece, não conta; e o que não conta, não recebe investimento. Por isso, tornar o cuidado visível foi defendido como uma forma concreta de proteger a vida.
Cartografia do cuidado: quando a pauta vira evidência
Nesse contexto, participantes destacaram a importância de ferramentas de mapeamento das práticas de cuidado, capazes de evidenciar quem cuida, onde o cuidado acontece e quais são os vazios de política pública no entorno. A cartografia do cuidado apareceu como instrumento para mudar o patamar da conversa pública: ao mapear, o território prova que o cuidado existe, mostra como funciona e revela onde o Estado está ausente. O debate sai do campo da opinião e entra no campo da evidência — e evidência, em política pública, orienta decisão, financiamento e cobrança de responsabilidades.
O limite da “boa vontade”: rede precisa de sustentação
Outro ponto repetido foi o alerta contra a ideia de que cuidado comunitário deve depender de “boa vontade” permanente. Para as falas no encontro, rede precisa de condições, formação, apoio e integração. Sem isso, o território fica preso à lógica da emergência, sempre apagando incêndio, enquanto as falhas estruturais seguem intactas. A crítica não é ao cuidado comunitário — é à naturalização da ausência do Estado. Reconhecer a potência das redes não significa transferir a elas a responsabilidade por garantir direitos.
Ao reafirmar que políticas de cuidado nas favelas produzem saúde para todas as pessoas, o Dia Estadual deslocou o olhar tradicional sobre esses territórios. Em vez de reduzir favela à carência, organizações defenderam reconhecê-la como produtora de saber, tecnologia social e soluções coletivas. A síntese do encontro foi clara: fortalecer essas redes é, ao mesmo tempo, justiça social e estratégia de saúde pública. Quando o cuidado territorial é reconhecido e integrado, a resposta do sistema melhora para a cidade inteira.
O fio que liga janeiro a fevereiro: continuidade, método e território
A agenda do MUF ecoa, com força prática, o que a ComCausa já havia publicado em janeiro: defender a vida nas periferias e favelas não é ideia abstrata; é urgência diária que se repete na escola, no trajeto, na fila do posto, no deslocamento para trabalhar e na busca por serviços que deveriam funcionar como rotina — mas chegam fragmentados, insuficientes ou tardios. Ao organizar sua comunicação e acompanhamento por #FavelaVida, #BaixadaViva e #SomosUmRio, a ComCausa afirma um princípio de continuidade: registrar práticas, consolidar evidências, dar rastreabilidade às ações e sustentar cobrança permanente por integração, orçamento e presença do Estado onde a vida acontece.
Assim, o encontro do Dia Estadual de Saúde nas Favelas, no MUF, reforçou um recado simples e exigente: o cuidado nas favelas já existe, é coletivo e cotidiano — e precisa ser tratado como parte da estrutura do sistema, não como exceção. Para isso, é necessário reconhecer redes comunitárias sem romantizar a ausência do Estado, transformar cuidado em evidência por meio de mapeamentos, garantir sustentação material e integrar políticas para que o SUS funcione com coordenação, contin
O que reúne organizações sociais, universidades e coletivos comunitários em diferentes regiões do estado, segundo os organizadores.
Mais do que uma agenda simbólica, o encontro funcionou como recado político: uma saúde que se diz universal não pode existir como promessa abstrata, distante do território onde a vida acontece. A avaliação compartilhada no evento foi que, sem reconhecer as formas de cuidado que já sustentam as favelas, o Estado tende a repetir um modelo que chega tarde, fragmentado e sem vínculo com a realidade concreta.
A mobilização também retomou uma ideia que vem ganhando força no debate público: o cuidado nas favelas já ocorre de forma coletiva e cotidiana e precisa ser tratado como parte estruturante da saúde pública — não como exceção. Para participantes, essas redes operam como proteção social e sanitária em tempo real, articulando solidariedade e respostas imediatas diante das desigualdades.
ComuniSaúde e o impacto nas favelas
O ComuniSaúde é uma iniciativa que difunde o direito à saúde e valoriza o Sistema Único de Saúde (SUS) e seus profissionais, fortalecendo redes comunitárias em favelas e periferias por meio de ações formativas, comunicação cidadã e articulações locais que ampliam o acesso ao atendimento básico, à saúde mental e a campanhas educativas. O projeto atua como ponte entre moradores e serviços públicos, oferecendo também um canal telefônico para orientação, mediação de conflitos e cobrança junto aos órgãos competentes sempre que houver negativa ou omissão no atendimento.
ComCausa ComuniSaúde acesse: comunisaude.org.br
Plano Integrado de Saúde nas Favelas do Rio de Janeiro
Desde 2021, mais de R$ 22 milhões foram investidos em projetos de saúde nas favelas cariocas, com apoio da Lei Nº 8.972/20 e do Fundo Especial da ALERJ. Instituições renomadas como a Fiocruz , IFF, UENF, UFRJ, UERJ, PUCRJ, SBPC, Alerj e Abrasco fazem parte do Plano Integrado de Saúde nas Favelas do Rio de Janeiro, com o objetivo de garantir que os serviços de saúde alcancem as áreas mais necessitadas.
Essa articulação interinstitucional é fundamental para reduzir desigualdades históricas e promover o acesso universal à saúde como um direito humano básico e inalienável.
Imagem de capa ilustrativa.
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