Entrevista reacende debate sobre memória e reparação histórica de João Cândido

Plano do Museu João Candido

A memória de João Cândido Felisberto, líder da Revolta da Chibata, foi o centro da entrevista concedida por Frei Tatá ao podcast “Todas as vozes em um IFRJ”, ao lado do professor Rodney. Durante a conversa, Frei Tatá fez uma reflexão crítica sobre quem o Estado escolhe homenagear e como essa escolha revela disputas históricas, raciais e políticas ainda abertas no Brasil.

“Quando falamos de memória no Rio, precisamos olhar para quem o Estado escolhe homenagear. Marinheiro João Cândido já é herói municipal e estadual, mas ainda falta o reconhecimento nacional”, afirmou. Para ele, resgatar a trajetória do chamado “Almirante Negro” não é apenas rever o passado, mas promover justiça histórica. “Memória é reparação”, reforçou.

Na entrevista, Frei Tatá comparou o reconhecimento dado a figuras consagradas do esporte e da cultura com o silenciamento imposto a personagens que desafiaram estruturas de poder. Segundo ele, lembrar João Cândido é também enfrentar o racismo estrutural que tentou apagar sua luta e criminalizar sua liderança na revolta que, em 1910, denunciou os castigos físicos impostos a marinheiros negros e pobres.

O diálogo no podcast acontece em um momento simbólico. O Ministério Público Federal move uma ação civil pública contra a União, questionando manifestações oficiais da Marinha do Brasil consideradas ofensivas à memória de João Cândido. Para Frei Tatá, o processo reforça a atualidade do debate levantado na entrevista: a disputa pela memória não é apenas simbólica, mas tem consequências políticas e institucionais.

Ao longo da conversa, o religioso destacou o papel da educação, da comunicação popular e dos espaços acadêmicos na construção de uma memória mais justa. Para ele, reconhecer João Cândido em nível nacional significa assumir responsabilidades históricas e reafirmar o compromisso do Estado com os direitos humanos.

A entrevista no podcast “Todas as vozes em um IFRJ” se soma a outras iniciativas que buscam retirar João Cândido do apagamento histórico e colocá-lo no lugar que lhe cabe: o de símbolo de resistência, dignidade e luta contra a violência institucional. Mais do que homenagem, a fala de Frei Tatá aponta a memória como ferramenta ativa de transformação social.

O debate ganha ainda mais força com a ação civil pública ajuizada pelo Ministério Público Federal contra a União. O MPF busca responsabilizar o Estado brasileiro por dano moral coletivo em razão de manifestações oficiais da Marinha do Brasil consideradas ofensivas à memória de João Cândido. Segundo o órgão, tais posicionamentos desrespeitam não apenas a trajetória do marinheiro, mas também princípios constitucionais e tratados internacionais de direitos humanos ratificados pelo Brasil.

João Cândido liderou, em 1910, a Revolta da Chibata, movimento que denunciou a violência e os castigos físicos impostos a marinheiros, em sua maioria negros e pobres. Apesar da relevância histórica da luta, ele foi perseguido e silenciado por décadas. Apenas em 2008, por meio da Lei 11.756, o Estado brasileiro concedeu anistia oficial a João Cândido e aos demais participantes da revolta.

Para o procurador adjunto dos Direitos do Cidadão no Rio de Janeiro, Julio Araujo, que assina a ação, a anistia não é apenas um ato formal. Ela carrega efeitos jurídicos e simbólicos concretos e impõe ao Estado o dever de respeitar, preservar e promover a memória coletiva associada à luta pelo fim da tortura institucionalizada na Marinha.

Na ação, o MPF pede que a Justiça Federal reconheça a responsabilidade civil da União, determine o pagamento de R$ 5 milhões por dano moral coletivo e impeça novas manifestações oficiais que desabonem a trajetória e o legado de João Cândido.

O caso reacende o debate sobre memória, racismo estrutural e reparação histórica no Brasil. Para movimentos sociais, educadores e defensores dos direitos humanos, reconhecer João Cândido em âmbito nacional não é apenas resgatar o passado, mas reafirmar o compromisso do Estado com a verdade, a justiça e a dignidade do povo negro.

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