Futebol e masculinidade: como o esporte molda comportamentos de meninos e homens

Pai e filho assistindo futebol

O futebol, principal esporte de massa no Brasil, é também um dos espaços mais influentes na formação de meninos e homens. Desde a infância, jogar bola pode significar mais do que lazer: em muitos territórios, a prática se torna um rito de pertencimento, reconhecimento e afirmação masculina. Nos campinhos, nas escolas, nas escolinhas de base, nos clubes, nas torcidas e nas redes sociais, o esporte ajuda a moldar comportamentos, afetos, conflitos e formas de convivência.

Essa influência pode ser positiva quando o futebol estimula disciplina, cooperação, respeito às regras, trabalho em equipe e cuidado coletivo. Mas também pode reforçar padrões de masculinidade marcados pela repressão emocional, pela agressividade, pelo machismo, pela homofobia, pelo racismo e pela ideia de que meninos precisam provar força o tempo todo para serem aceitos.

Frases como “homem não chora”, “tem que aguentar dor”, “não pode amarelar” e “joga como homem” ainda fazem parte da cultura esportiva em muitos ambientes. Embora pareçam expressões comuns, elas ajudam a construir uma noção de masculinidade baseada no silêncio, na dureza e na negação da vulnerabilidade. O resultado pode aparecer na dificuldade de pedir ajuda, de lidar com frustrações, de expressar tristeza e de resolver conflitos sem violência.

Nas categorias de base, essa pressão costuma surgir cedo. Crianças e adolescentes são cobrados por desempenho, resistência física e comportamento competitivo, muitas vezes em ambientes que reproduzem a lógica do futebol profissional antes mesmo da formação humana estar consolidada. A derrota pode ser tratada como fracasso pessoal. A dor pode ser ignorada. O medo pode virar motivo de humilhação. A emoção pode ser confundida com fraqueza.

Esse processo afeta a saúde mental e a forma como meninos constroem relações com a família, a escola, os amigos, as mulheres, outros homens e pessoas LGBTQIA+. Quando o esporte ensina que masculinidade é dominar, resistir calado e nunca demonstrar fragilidade, ele também pode naturalizar comportamentos de risco, explosões de raiva e dificuldade de diálogo.

O problema não está no futebol em si, mas na cultura que se organiza ao redor dele. O esporte pode reproduzir violências existentes na sociedade, mas também pode ser usado para enfrentá-las. No Brasil, a discussão ganha ainda mais peso porque a violência letal atinge de forma desproporcional homens jovens, negros e moradores de territórios periféricos. Nesse cenário, trabalhar masculinidades positivas não é apenas uma pauta comportamental: é uma estratégia de prevenção e defesa da vida.

O futebol também evidencia como preconceitos estruturais atravessam a vida social. Xingamentos homofóbicos, insultos racistas, piadas machistas, hostilidade contra mulheres no esporte e desvalorização do futebol feminino mostram que parte da cultura esportiva ainda associa masculinidade à superioridade, à dominação e à exclusão. Nas arquibancadas e nas redes sociais, rivalidades esportivas frequentemente ultrapassam o limite da disputa simbólica e se transformam em discurso de ódio, intimidação e violência.

A legislação brasileira passou a tratar essas práticas com mais rigor. A Lei nº 14.532, de 2023, equiparou a injúria racial ao crime de racismo e aumentou a pena quando o crime ocorre em contexto de atividades esportivas, religiosas, artísticas ou culturais. Já a Lei Geral do Esporte, Lei nº 14.597, de 2023, reforçou o dever de combater práticas discriminatórias no ambiente esportivo e ampliou a responsabilidade de entidades, organizadores e agentes envolvidos na promoção de eventos esportivos.

Casos recentes de racismo no futebol internacional, especialmente envolvendo atletas brasileiros, ampliaram a pressão por protocolos mais efetivos de combate à discriminação nos estádios. No Brasil, iniciativas conhecidas como Lei Vini Jr. impulsionaram medidas para interromper partidas diante de atos racistas e responsabilizar agressores, mostrando que o enfrentamento ao racismo no esporte deixou de ser apenas uma campanha simbólica e passou a exigir respostas institucionais mais firmes.

A violência no futebol de base também acende alerta. Em São Paulo, medidas recentes buscaram restringir a presença de adultos envolvidos em episódios de má conduta em jogos de crianças e adolescentes, após registros de ofensas, injúrias raciais, homofobia, ameaças e agressões em partidas juvenis. O dado revela que a formação esportiva de meninos não depende apenas de treinadores e atletas, mas também do comportamento de famílias, torcidas e instituições responsáveis pelo ambiente de competição.

Apesar dos riscos, o futebol segue sendo uma ferramenta poderosa de transformação social. Projetos comunitários, escolas, clubes e organizações da sociedade civil têm usado o esporte para trabalhar educação emocional, prevenção da violência, cultura de paz, respeito à diversidade, paternidade responsável, autocontrole e convivência democrática. Quando bem orientado, o campo vira espaço de escuta, aprendizagem e reconstrução de vínculos.

Nesse contexto, a ComCausa – Defesa da Vida, com apoio do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), estrutura o Núcleo de Masculinidades Positivas para a Defesa da Vida. A iniciativa propõe rodas de conversa orientadas, pactos de convivência, ferramentas práticas de maturidade emocional e mobilização pública para transformar autocontrole em proteção real, dentro e fora de casa.

A proposta parte de uma ideia central: meninos e homens não precisam ser formados pela violência para serem reconhecidos. Eles podem aprender a lidar com raiva, frustração, medo, desejo de pertencimento e conflitos de maneira mais saudável. Podem construir relações baseadas em respeito, cuidado e responsabilidade. Podem reconhecer limites sem transformar vulnerabilidade em vergonha.

No futebol, isso significa mudar a forma de treinar, torcer, competir e educar. Significa combater humilhações como método de formação. Significa responsabilizar atitudes racistas, machistas e homofóbicas. Significa orientar famílias e treinadores. Significa criar espaços onde meninos possam falar sobre emoções, medo, pressão, derrotas e expectativas sem serem ridicularizados.

A discussão sobre futebol e masculinidade não busca condenar o esporte. Ao contrário: reconhece sua força cultural e sua capacidade de mobilizar milhões de pessoas. Justamente por isso, o futebol pode ser um caminho estratégico para enfrentar padrões violentos e construir novas formas de ser homem.

Quando o esporte ensina cooperação, respeito, autocontrole e cuidado, ele ajuda a formar homens mais conscientes. Quando enfrenta o racismo, a homofobia e o machismo, contribui para ambientes mais seguros. Quando acolhe meninos em sua humanidade, fortalece a defesa da vida. O desafio é transformar o futebol em um campo de formação cidadã, onde vencer não signifique dominar o outro, mas aprender a conviver com dignidade.

ComCausa – Núcleo de Masculinidades Positivas para a Defesa da Vida

ComCausa – Defesa da Vida, com apoio do UNFPA – Fundo de População das Nações Unidas (ONU), estrutura o Núcleo de Masculinidades Positivas para a Defesa da Vida como um caminho comunitário: rodas de conversa orientadas, pactos de convivência, ferramentas práticas de maturidade emocional e mobilização pública para transformar autocontrole em proteção real, dentro e fora de casa.

Este artigo integra o Núcleo de Masculinidades Positivas para a Defesa da Vida, estruturado pela ComCausa – Defesa da Vida com apoio do UNFPA – Fundo de População das Nações Unidas (ONU). A proposta enfrenta padrões de masculinidade associados a conflitos familiares e violências cotidianas, com foco em atitudes práticas: autocontrole, convivência pacífica, respeito, corresponsabilidade e cuidado.

Parceria UNFPA – Fundo de População das Nações Unidas (ONU):

UNFPA – Fundo de População das Nações Unidas (ONU) ComCausa Masculinidades

Leia também

Fale conosco! | Nos conheça

Projeto Comunicando ComCausa

Portal C3 | Instagram C3 Oficial

______________________

Comunicando ComCausa Pêmio Periferia Viva Ministério Cidades 2025

______________________

Colabore com nosso projeto pix.comcausa@gmail.com

Pix ComCausa

______________________

Compartilhe: