A mesma morte que encontrou o manuscrito de Liesel Meminger em A Menina que Roubava Livros seria capaz de encontrar o mínimo sinal de esperança em Gaza? Talvez esse paralelo entre a Alemanha nazista e o atual Estado de Israel, sob o governo sionista, se resuma na frase dita pela própria Morte ao final do livro: “Os seres humanos me assombram.”
Infelizmente — ou não — a Morte não nos contou em detalhes como seguiu a vida da menina que roubava livros. Apenas nos deu um sinal de esperança: que, apesar da morte, a vida sorriu para aquela menina que corria ao lado de Rudy roubando maçãs para matar a fome e invadia a biblioteca da mulher do prefeito para saciar sua curiosidade.
Talvez, se tivéssemos um vislumbre de como Liesel conseguiu sobreviver — sim, sobreviver, porque não acredito que uma criança, após presenciar tantas mortes, seja capaz de viver sem ser assombrada pela dor de perder tanto em tão pouco tempo pela estupidez humana —, eu pudesse também vislumbrar um mínimo de futuro para as crianças em Gaza. O número de mortos já ultrapassa 52 mil, segundo o Ministério da Saúde de Gaza. A maioria das vítimas são civis, incluindo mulheres e crianças. A ONU alerta para uma iminente fome generalizada, com 92% das crianças e mães lactantes sofrendo de desnutrição severa.
Será que ainda existem porões que possam salvar essas crianças? Ou o mínimo de humanidade nos homens velhos em seus tronos, que tomam decisões em nome da humanidade, capazes de pôr fim ao maior massacre moderno — um verdadeiro genocídio de crianças e inocentes?
No livro, que apesar de ser uma ficção carrega tons reais da Alemanha nazista, temos Max Vandenburg, um judeu escondido no porão da casa de Liesel que sobreviveu aos campos de concentração. É de se pensar que um povo judeu, historicamente perseguido, tivesse ao menos o mínimo de consciência humana. Mas a história resolveu nos visitar novamente — e, desta vez, são eles que enfileiram corpos no maior campo de concentração a céu aberto do mundo: Gaza.
De Hitler a Benjamin Netanyahu, a ode à barbárie se repete com a mesma desculpa: proteger seu povo, matando outro. Destrói-se uma cultura, apaga-se a educação, semeia-se a fome e a dor — a mesma fome que fazia Liesel e Rudy roubarem maçãs e atirarem pães amassados para os judeus levados aos campos de extermínio. Hoje, atinge 92% das crianças em Gaza.
Ao revisitar o livro escrito por Markus Zusak, me veio à memória o sentimento que tive ao ler a cena em que Liesel coloca o acordeom ao lado do corpo do pai adotivo, morto pelo bombardeio — e a Morte nos diz que o viu tocar uma última vez para a menina. O sentimento era de angústia, e me perguntei como podia haver beleza na guerra. Talvez a beleza estivesse nos pequenos resquícios de esperança: como um pai que toca acordeom para a filha, ou como os voluntários que, mesmo sob risco de serem mortos por bombardeios israelenses, insistem em levar comida para Gaza.
Que pontos de esperança ainda podemos ter diante de um Netanyahu com sangue nas mãos, capaz de chamar de amigo Elon Musk, após este fazer um gesto nazista durante o discurso da posse de Trump como presidente dos EUA? Musk bateu com a mão direita no peito, com os dedos abertos, e depois estendeu o braço em diagonal para cima, com os dedos juntos e a palma para baixo. Musk também endossou uma postagem que acusava os judeus de “ódio contra os brancos”, chamando-a de “a verdade real”. Mais tarde, ele se desculpou.
O fim da guerra está nas mãos de um homem que talvez não tenha o trágico fim de Hitler, mas que certamente será colocado na mesma prateleira da história. Quando se contar sobre o Israel sionista, certamente será feito o paralelo com a Alemanha nazista.
Por fim, talvez a Morte não encontre uma menina que roube livros em Gaza. Mas ela já visitou milhares de crianças mortas pela mesma barbárie que um dia matou os judeus nos campos de concentração. E sei que, se pudesse dizer algo a você que chegou até aqui, ela repetiria o que disse à menina que roubava livros:
“Tudo que pude fazer foi virar-me para Liesel Meminger e lhe dizer a única verdade que realmente sei. Eu a disse à menina que roubava livros e a digo a você agora.”
• UMA ÚLTIMA NOTA DE SUA NARRADORA •
Os seres humanos me assombram.
Por João Oscar – Militante político, jornalista e articulador da Instituição ComCasua de Direitos Humanos
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