O presidente Luiz Inácio Lula da Silva concedeu, de forma póstuma, a Ordem de Rio Branco, no grau de comendador, à advogada Eunice Paiva, uma das maiores referências na luta por memória, verdade e justiça durante e após a ditadura militar no Brasil (1964–1985). A condecoração foi publicada nesta quarta-feira (28) no Diário Oficial da União e representa um reconhecimento oficial à sua trajetória marcada por coragem, dignidade e persistência.
Eunice foi casada com o ex-deputado federal Rubens Paiva, preso, torturado e morto em 1971 por agentes do regime militar. A partir do desaparecimento forçado do marido, ela transformou sua dor em mobilização, tornando-se uma voz incansável entre os familiares de vítimas da repressão. Sem qualquer apoio institucional na época, criou sozinha os cinco filhos, entre eles o escritor Marcelo Rubens Paiva, autor da obra Ainda Estou Aqui, que relata a história da família e inspirou o filme homônimo, vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.
Mesmo diante das dificuldades, Eunice formou-se em Direito para dar continuidade à sua busca por justiça. Sua atuação se expandiu para outras frentes sociais, incluindo a defesa dos direitos dos povos indígenas. Como advogada e consultora, colaborou com projetos do governo federal, do Banco Mundial e da Organização das Nações Unidas, sempre pautando sua atuação pela garantia dos direitos humanos e pela construção de políticas públicas inclusivas.
A homenagem vem em um momento simbólico, em que o Brasil volta a debater os limites da democracia e a importância de preservar a memória das violações cometidas pelo Estado. A condecoração à Eunice representa não apenas o reconhecimento de uma trajetória pessoal, mas também uma reparação histórica a todas as famílias que sofreram com a repressão e a censura.
Eunice Paiva faleceu em 2018, aos 86 anos, em decorrência do Mal de Alzheimer. Mesmo após sua morte, sua luta continua presente nos espaços de defesa da democracia e dos direitos humanos.
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