Memória: Morte de Darcy Ribeiro

Dia do falecimento de Darcy Ribeiro

No dia 17 de fevereiro de 1997 falecia Darcy Ribeiro, que foi Antropólogo, sociólogo, escritor, historiador e político brasileiro, reconhecido pelas causas indígenas e de educação do país.

Durante o primeiro governo de Leonel Brizola no Rio de Janeiro (1983-1987), Darcy Ribeiro, como vice-governador, criou, planejou e dirigiu a implantação dos Centros Integrados de Ensino Público (CIEP), um projeto pedagógico visionário e revolucionário no Brasil de assistência em tempo integral a crianças, incluindo atividades recreativas e culturais para além do ensino formal – dando concretude aos projetos idealizados décadas antes por Anísio.

Darcy Ribeiro foi educador, político, etnólogo, antropólogo e escritor brasileiro. Seus estudos foram essenciais para alavancar uma nova reforma educacional no Brasil. Na área da antropologia, aprofundou na análise das comunidades indígenas. O principal conceito difundido por ele foi o de identidade cultural.

Darcy Ribeiro preocupou-se em identificar uma cultura nacional do povo brasileiro que não anulasse nenhuma das culturas presentes em nosso território e nem separasse, como em “caixas” de classificação, cada uma das diferentes culturas.

Darcy Ribeiro considerava o Brasil uma espécie de nova Roma, tropical e mestiça, por ele denominada a mais bela e luminosa província da Terra. Em As Américas e a Civilização (1970), o antropólogo Darcy Ribeiro (1922-1997) definira Povos-Novos como povos que se constituíram “pela confluência de contingentes profundamente díspares em suas características raciais, culturais e linguísticas, como um subproduto de projetos coloniais europeus”.

Sua morte:

Darcy Ribeiro pediu a extrema unção de Leonardo Boff em um dos momentos mais marcantes de sua vida, refletindo sobre a morte e a existência de Deus.

Darcy iniciou a conversa dizendo:
“Quero discutir com você o tema da morte, porque estou enfrentando a morte, meu grande último desafio.”

Em seguida, pediu que Boff lesse o prefácio do então inédito Confissões, livro no qual faz uma reflexão sobre sua trajetória. No trecho lido, Darcy escreveu:

“Pena que a vida, tão carregada de lutas e fracassos, e vitórias, e vontade de trabalhar, seja marcada por uma profunda desesperança, porque nós voltamos, através da morte, ao pó cósmico, ao esquecimento, e ficamos na memória que é curta e só de algumas pessoas. Voltamos à diluição cósmica.”

Ao final da leitura, Boff respondeu:
“Darcy, acho que essa é uma interpretação de quem vê de fora. É como olhar a borboleta e ver o casulo. Você pode chorar pelo casulo deixado para trás, dizendo que ele morreu. Mas também pode olhar para a borboleta e dizer: ‘Não, ele libertou a borboleta, e ela é a esperança de vida que estava dentro do casulo’.”

Continuando sua visão, Boff acrescentou:
“Darcy, deixa eu te dizer como imagino a tua chegada, o teu grande encontro. Não vai ser com Deus Pai, porque para você Deus tem que ser Mãe, tem que ser mulher…”

Darcy sorriu e disse:
“Então vai ser uma Deusa.”

Boff prosseguiu:
“Imagino assim: quando você chegar lá em cima, Deus vai te receber de braços abertos e dizer: ‘Darcy, como você custou para chegar! Eu estava com uma saudade louca de você. Finalmente veio, mesmo sem querer, mas chegou!’ Então Deus te abraça, te acolhe em seu seio e te leva de abraço em abraço, de festa em festa.”

Darcy, com sua irreverência, completou:
“De farra em farra…” e riu.

Boff concluiu:
“Isso será pela eternidade afora.”

Nesse momento, Darcy parou, olhou de lado, como que interrogando Boff, e disse:
“Como gostaria que fosse verdade! Minha mãe morreu cheia de fé e partiu tranquila. Eu invejo você, que é um homem inteligente e de fé. Eu não tenho fé. Como gostaria que fosse verdade.”

Boff então percebeu uma lágrima escorrendo do rosto de Darcy. O antropólogo ficou silencioso, estremeceu e teve um acesso de diabetes, sofrendo uma queda brusca de pressão, precisando ser socorrido.

Antes de se despedir, Boff disse a ele:
“Darcy, não se preocupe com a fé, porque Deus não se incomoda com a fé. Pelos critérios de Jesus, quem tem amor tem tudo. E quando alguém chega ao fim da vida como você, que atendeu os famintos, ajudou crianças abandonadas, lutou pelos indígenas marginalizados, defendeu os negros, enalteceu as mulheres oprimidas – quem fez isso já tem tudo. Porque optou pelos últimos, pelos que estavam em necessidade. Quem fez isso tem o Reino, tem a eternidade, tem Deus. E você só fez isso.”

Darcy respirou fundo e disse:
“Puxa, mas tem de ser verdade.”

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