Milhares marcham em Copacabana por justiça e bem-viver

10ª Marcha das Mulheres Negras do RJ. Mulheres negras marcham contra o racismo e pelo bem viver, na praia de Copacabana. - Tânia RêgoAgência Brasil

No último domingo, 27 de julho de 2025, a orla de Copacabana foi tomada por milhares de mulheres negras de todas as regiões do estado do Rio de Janeiro. Reunidas sob o lema Contra o racismo, por justiça e bem-viver, elas participaram da XI Marcha das Mulheres Negras do Rio de Janeiro, uma das maiores mobilizações políticas e simbólicas do país em defesa dos direitos das mulheres negras. A marcha reafirmou a força de um movimento que articula memória, denúncia e proposição, conectando pautas históricas a reivindicações urgentes de justiça social e dignidade.

A data foi escolhida por sua carga simbólica. Além da proximidade com o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha (25 de julho), o dia 27 marca o aniversário de Marielle Franco, vereadora assassinada em 2018, que completaria 46 anos. A presença da ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco, da mãe Marinete da Silva e da filha Luyara Franco reforçou o caráter afetivo e político do ato, que se tornou também uma celebração da vida e do legado de Marielle.

Preparação para a Marcha Nacional

A marcha deste ano também serviu como etapa preparatória para a II Marcha Nacional das Mulheres Negras, que acontecerá no dia 25 de novembro, em Brasília. Essa conexão entre o ato regional e a articulação nacional evidencia o fortalecimento da mobilização em rede e o engajamento de diferentes territórios na construção de uma agenda política liderada por mulheres negras.

Coletivos comunitários, organizações de base, mães de vítimas da violência estatal, militantes e lideranças políticas estiveram presentes, ampliando a diversidade de vozes e demandas na marcha. A pluralidade das participantes demonstrou a capilaridade e a potência de um movimento que articula resistência e proposta.

Infância, juventude e continuidade do movimento

Neste ano, a faixa principal da marcha foi conduzida por meninas e jovens negras, simbolizando a continuidade geracional da luta. Em seguida, desfilaram blocos compostos por mães que perderam seus filhos em ações violentas do Estado.

Bem-viver como centro das reivindicações

O conceito de bem-viver, há décadas presente nas pautas do movimento negro, ocupou lugar de destaque na marcha. A mobilização reivindica políticas públicas que assegurem qualidade de vida, segurança, educação e acesso a direitos básicos, diante de um cenário de desigualdade estruturada.

Desigualdade e ausência política

A marcha também reforçou a urgência de ampliar a presença de mulheres negras nos espaços de decisão. Integrante do movimento Mulheres Negras Decidem, Richelle da Silva Costa destacou que a sub-representação política compromete a formulação de políticas públicas capazes de enfrentar as desigualdades de forma estruturada e interseccional.

Dados que sustentam a urgência das pautas

Dados recentes reforçam a urgência das pautas levantadas pela XI Marcha das Mulheres Negras do Rio de Janeiro. Mulheres negras representam 28% da população brasileira, mas ocupam menos de 3% das cadeiras parlamentares em todo o país. Segundo o Atlas da Violência 2024, elas também são maioria entre as vítimas de feminicídio. Além disso, de acordo com o IBGE, recebem em média menos da metade do salário de homens brancos com o mesmo nível de escolaridade. Esse grupo social também está entre os mais atingidos pela violência urbana e pela omissão do Estado, especialmente em territórios marcados pela vulnerabilidade, como favelas e periferias.

Memória, denúncia e construção coletiva

A XI Marcha das Mulheres Negras do Rio de Janeiro reafirma o papel central das mulheres negras na resistência contra o racismo estrutural e a violência de Estado. Ao ocupar Copacabana, um dos bairros mais elitizados e simbólicos da cidade, o movimento tornou visível aquilo que muitas vezes é silenciado: a dor, a luta e a potência de um segmento social historicamente invisibilizado, mas que resiste e propõe um novo projeto de país — mais justo, igualitário e centrado no bem-viver.

Imagem de capa ilustrativa

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