MPRJ lança projeto piloto contra capacitismo no ambiente de trabalho

Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência

O Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro iniciou, em julho de 2026, o projeto-piloto MP Atitude Inclusiva, voltado à identificação de comportamentos cotidianos que dificultam a participação de pessoas com deficiência no ambiente de trabalho. A iniciativa pretende estimular relações mais acessíveis, acolhedoras e respeitosas e ampliar o enfrentamento ao capacitismo dentro da instituição.

O projeto concentra a atenção nas barreiras atitudinais, que nem sempre aparecem em avaliações de acessibilidade física ou tecnológica. Elas surgem em falas, decisões, julgamentos e formas de tratamento que reduzem a autonomia da pessoa com deficiência ou colocam em dúvida sua capacidade profissional.

Na prática, esse tipo de barreira pode ocorrer quando alguém presume que uma pessoa não consegue realizar determinada tarefa, fala com o acompanhante em vez de se dirigir diretamente a ela, infantiliza sua comunicação, exclui sua participação em decisões ou desconsidera adaptações necessárias ao desempenho do trabalho.

O capacitismo também pode aparecer de maneira disfarçada em piadas, expressões ofensivas, elogios exagerados por atividades comuns e avaliações profissionais baseadas na deficiência, e não nas competências da pessoa. A prática está relacionada à ideia preconceituosa de que pessoas com deficiência seriam menos capazes ou produtivas.

Acessibilidade é obrigação legal

A Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência considera barreiras atitudinais os comportamentos que impedem ou prejudicam a participação social em igualdade de condições. A legislação também determina que instituições públicas e privadas garantam ambientes de trabalho acessíveis e inclusivos.

A responsabilidade do Ministério Público vai além de suas relações internas. A lei estabelece que o poder público deve capacitar integrantes do Judiciário, do Ministério Público, da Defensoria Pública, dos órgãos de segurança e do sistema penitenciário sobre os direitos das pessoas com deficiência. A medida busca assegurar acesso à Justiça com autonomia, adaptações adequadas e recursos de tecnologia assistiva.

Nesse contexto, a mudança de atitudes interfere diretamente na qualidade do atendimento prestado à população. Uma pessoa com deficiência pode participar de um processo como vítima, testemunha, investigada, advogada, servidora ou integrante da própria instituição. Em qualquer dessas situações, a comunicação e os procedimentos precisam respeitar sua autonomia.

País tem 14 milhões de pessoas com deficiência

O Censo Demográfico de 2022 identificou 14,4 milhões de pessoas com deficiência entre os brasileiros com 2 anos ou mais. O grupo representava 7,3% da população dessa faixa etária. Os números mostram que a acessibilidade não atende a uma parcela pequena ou excepcional da sociedade, mas constitui uma dimensão permanente das políticas públicas e dos serviços essenciais.

As barreiras atitudinais podem ampliar desigualdades no acesso ao trabalho, à educação, à informação e à Justiça. Mesmo quando prédios, documentos e sistemas digitais cumprem requisitos técnicos, comportamentos discriminatórios ainda podem impedir a participação plena das pessoas com deficiência.

Projeto amplia ações anteriores

O MPRJ mantém desde julho de 2018 o programa MP Inclusivo, criado para reservar pelo menos 5% das vagas de estágio não forense a estudantes com deficiência. A iniciativa também prevê atividades supervisionadas, acompanhamento e preparação para o ingresso no mercado de trabalho.

O MP Atitude Inclusiva acrescenta outra dimensão a essa política ao direcionar o debate para a convivência e a cultura organizacional. A entrada de pessoas com deficiência em uma instituição não garante, isoladamente, a inclusão. Também são necessários respeito, escuta, autonomia, adaptações razoáveis e igualdade nas oportunidades de formação e crescimento profissional.

Resultados dependem de mudanças concretas

Para produzir efeitos permanentes, o projeto-piloto precisará transformar a sensibilização em procedimentos institucionais. Isso inclui capacitações periódicas, participação direta de pessoas com deficiência na construção das ações, canais acessíveis para comunicar situações discriminatórias e critérios capazes de medir mudanças no ambiente de trabalho.

A avaliação também deve observar se as necessidades de acessibilidade recebem respostas adequadas e se as pessoas com deficiência participam das decisões que afetam sua rotina. Sem acompanhamento, iniciativas educativas correm o risco de se limitar a campanhas pontuais.

Ao abordar as barreiras atitudinais, o projeto reforça que acessibilidade não se resume a rampas, elevadores ou ferramentas digitais. Ela também depende da forma como as pessoas são recebidas, ouvidas e reconhecidas como sujeitos de direitos. O desafio do piloto será incorporar esse princípio às relações profissionais e ao atendimento cotidiano oferecido pelo MPRJ.

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