A ventania que atingiu o Rio de Janeiro na tarde de quarta-feira, 29 de julho, deixou dois mortos em Santa Teresa, derrubou árvores, interrompeu transportes e provocou um apagão que ainda mantinha 522 mil clientes sem energia no estado na manhã desta quinta-feira, 30. A rajada mais forte alcançou 105,5 km/h no Aeroporto Internacional do Galeão às 17h. Diante do risco de ocorrências de alto impacto, a capital entrou em Estágio 2 às 16h50.
O balanço disponível às 9h15 desta quinta contabilizava 291 ocorrências relacionadas aos ventos em todo o estado. Desse total, 154 envolveram cortes ou remoções de árvores, 31 foram salvamentos e cinco foram desabamentos. O número ainda pode aumentar conforme novos atendimentos são concluídos e registrados. Na noite de quarta-feira, o primeiro levantamento reunia 185 ocorrências.
Calor intenso antecedeu mudança brusca
A ventania ocorreu após uma tarde de calor incomum para o inverno. A estação de Barra/Riocentro registrou 36,8°C às 14h45. Na Vila Militar, a temperatura chegou a 35,8°C, uma das maiores marcas de julho naquela estação desde o início da série, em 2007. Menos de três horas depois, o Galeão registrou a rajada superior a 100 km/h.
A aproximação de uma frente fria pelo oceano encontrou uma massa de ar muito quente sobre o território fluminense. Esse contraste acelerou a mudança das condições atmosféricas e intensificou os ventos. Além do Galeão, houve registros de 95,4 km/h na Marambaia, 87,5 km/h na Vila Militar e 83,3 km/h no Campo dos Afonsos.
O município entrou em Estágio 2 quando ventos fortes e muito fortes já atingiam diferentes bairros. Esse é o segundo nível de uma escala de cinco e indica risco de ocorrências capazes de afetar a rotina da cidade, sem configurar uma crise generalizada.
Muro desaba e mata duas pessoas
As mortes ocorreram após o desabamento de um muro na região da Rua Doutor Júlio Otoni, em Santa Teresa. As vítimas foram identificadas como Tássio Maia dos Santos, de 41 anos, ex-atacante do Botafogo, e Vandré Cordeiro, que estava com ele no momento do acidente. Os dois foram atingidos pela estrutura e não resistiram.
A definição de responsabilidades dependerá da apuração das condições estruturais do muro, da manutenção do imóvel e da existência de sinais anteriores de risco. Até a manhã desta quinta-feira, não havia conclusão pública sobre as causas específicas do desabamento além do impacto provocado pelos ventos.
Na Costa Verde, equipes também procuravam um pescador desaparecido no mar na região de Tarituba e Mambucaba, em Angra dos Reis.
Apagão deixa mais de meio milhão sem energia
O sistema elétrico sofreu desligamentos em sequência a partir das 15h57. Às 16h38, a Subestação Grajaú foi desligada, ampliando o impacto simultâneo em diferentes pontos da capital e da Região Metropolitana. Árvores e galhos atingiram postes, cabos e equipamentos de distribuição.
Na manhã desta quinta-feira, 370 mil clientes permaneciam sem fornecimento na área atendida pela Light. Outros 152 mil continuavam sem energia na área da Enel, principalmente no sul do estado. Somados, os dois grupos representavam 522 mil clientes afetados.
A Light contabilizou 44 árvores caídas sobre sua rede. Campo Grande, Bangu, Anchieta, Tijuca, Catumbi, Jacarepaguá, Santa Cruz e Recreio dos Bandeirantes estavam entre os bairros com maior número de interrupções. A recuperação ocorre de forma gradual porque os danos ficaram espalhados e exigem retirada de árvores, substituição de equipamentos e reconstrução de trechos da rede.
O apagão também desligou semáforos, agravou congestionamentos e atingiu estabelecimentos comerciais, residências e serviços. Interrupções prolongadas produzem consequências mais graves em territórios com infraestrutura precária e famílias com menos recursos para enfrentar perdas de alimentos, dificuldades de deslocamento e paralisação de atividades de trabalho.
Metrô e trens sofreram paralisações
A falta de energia interrompeu temporariamente a circulação em todo o sistema do MetrôRio durante a tarde de quarta-feira. Trens urbanos e VLT também tiveram trechos paralisados ou com atrasos devido à combinação de falhas elétricas, quedas de árvores e danos próximos às vias. O impacto ocorreu perto do horário de maior movimento, quando milhares de passageiros retornavam para casa.
Na manhã desta quinta-feira, metrô, VLT, BRT, ônibus e barcas operavam regularmente. Os trens, entretanto, ainda apresentavam restrições. O ramal Japeri circulava apenas entre Nova Iguaçu e Central do Brasil, enquanto os trechos entre Comendador Soares e Japeri e a extensão até Paracambi permaneciam suspensos. No ramal Saracuruna, passageiros precisavam trocar de trem em Campos Elíseos.
Santos Dumont ficou fechado por duas horas
O Aeroporto Santos Dumont suspendeu pousos e decolagens entre 16h52 e 18h56. Antes da retomada, equipes inspecionaram a pista e retiraram objetos carregados pelo vento. Nove voos precisaram seguir para outros aeroportos e sete decolagens foram canceladas até o início da noite.
No Galeão, pelo menos quatro voos foram desviados, embora o terminal tenha permanecido aberto. O aeroporto foi o local da maior rajada registrada na capital. Na manhã desta quinta-feira, o Santos Dumont operava normalmente, mas quatro voos foram cancelados como consequência dos transtornos do dia anterior.
Intensidade superou previsão inicial
O prefeito Eduardo Cavaliere afirmou que a força da ventania foi muito superior à esperada e que o aviso emitido no início da tarde indicava intensidade menor do que a observada. A diferença entre o cenário previsto e o fenômeno registrado deverá ser examinada para aperfeiçoar monitoramento, comunicação de risco e tempo de resposta.
A Política Nacional de Proteção e Defesa Civil, estabelecida pela Lei nº 12.608 de 2012 e atualizada pela Lei nº 14.750 de 2023, atribui aos municípios tarefas como monitorar riscos, produzir alertas antecipados, vistoriar edificações vulneráveis, manter a população informada e coordenar medidas de prevenção e resposta. A legislação também exige atuação integrada entre municípios, estados e União.
Além da resposta emergencial, o episódio exige avaliação do manejo de árvores, das condições de muros e estruturas, da capacidade das redes elétricas e da eficiência dos alertas. A prevenção precisa alcançar de forma permanente favelas, periferias e áreas com infraestrutura mais vulnerável, onde os efeitos de apagões, bloqueios e danos urbanos tendem a ser mais difíceis de superar.
Não há confirmação de tornado
Até a manhã desta quinta-feira, não havia confirmação de tornado na cidade. Os registros disponíveis descrevem uma ventania associada à passagem de uma frente fria pelo oceano e ao contraste com o calor intenso.
Uma rajada superior a 100 km/h não caracteriza, isoladamente, um tornado. Esse fenômeno envolve uma coluna de ar em rotação ligada a uma nuvem de tempestade e costuma produzir um corredor mais concentrado de danos. Uma conclusão diferente dependeria da análise de radares, imagens, direção dos destroços e sinais de rotação.
Ventos perdem força nesta quinta-feira
A previsão para 30 de julho indica queda de temperatura, aumento de nebulosidade e possibilidade de chuvisco ou chuva fraca isolada. Os ventos marítimos devem continuar, mas sem a mesma intensidade da tarde de quarta-feira. As rajadas máximas podem ficar próximas de 50 km/h.
O principal problema imediato continua sendo a recuperação do fornecimento de energia, a retirada de árvores e a liberação de vias. A população deve evitar fios caídos, postes danificados, árvores inclinadas, muros rachados, andaimes e estruturas metálicas soltas. Cabos não devem ser tocados mesmo quando parecem desligados. Emergências podem ser comunicadas pelos telefones 193, do Corpo de Bombeiros, e 199, da Defesa Civil. Alertas gratuitos também podem ser recebidos por SMS após o envio do CEP para o número 40199.
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