Julgamento do envenenamento de Fernanda e Bruno: Tribunal do Rio retoma processo

Cintia Mariano Dias Cabral acusada de envenenar a enteada Fernanda Carvalho Cabral. Foto reprodução

Nesta terça-feira, 21 de outubro de 2025, o Tribunal do Júri da 3ª Vara Criminal do Rio de Janeiro será palco de um dos julgamentos mais aguardados e emocionalmente intensos dos últimos anos: o caso de Cíntia Mariano Dias Cabral, acusada de envenenar e matar a enteada, Fernanda Carvalho Cabral, de 22 anos, e de tentar assassinar o irmão dela, Bruno Carvalho Cabral, de 16 anos.

O caso — que uniu familiares, amigos, movimentos sociais e internautas sob o clamor de #JustiçaPorFernanda e #JustiçaPorBruno — ganhou repercussão nacional por seu caráter cruel e pelas contradições emocionais que envolvem a figura da acusada, madrasta das vítimas. A mãe dos jovens, Jane Carvalho Cabral, tem sido a principal voz na luta por justiça e vem mobilizando apoiadores para acompanhar o julgamento presencialmente. “Será a maior condenação já vista em todo o mundo!”, escreveu Jane nas redes sociais, convocando pessoas a comparecerem ao tribunal.

A sessão, presidida pelo juiz Alexandre Abrahão, titular do 3º Tribunal do Júri, ocorre na Sala 812 da Lâmina Central do Fórum da Capital, na Avenida Erasmo Braga, nº 115, Centro do Rio de Janeiro, e será aberta ao público.

O caso que abalou a cidade

De acordo com as investigações da Polícia Civil, Cíntia Mariano, de 49 anos, teria colocado “chumbinho” — um veneno altamente tóxico e proibido no Brasil — na comida servida aos enteados. Fernanda passou mal em 15 de março de 2022, foi internada em estado grave e faleceu no dia 28 de março, após quase duas semanas hospitalizada. Meses depois, em maio do mesmo ano, o irmão Bruno apresentou sintomas semelhantes após almoçar na casa da madrasta, sendo socorrido às pressas pela mãe, Jane, e levado ao Hospital Municipal Albert Schweitzer, em Realengo.

Segundo Jane, o adolescente começou a sentir-se mal cerca de uma hora após a refeição, apresentando tontura, dificuldade para falar, salivação intensa e palidez — sintomas quase idênticos aos de Fernanda antes de morrer. O quadro de Bruno levantou suspeitas imediatas, e a mãe procurou a 33ª Delegacia de Polícia (Realengo) para registrar a ocorrência que deu início à investigação formal.

Os exames laboratoriais confirmaram altos níveis de chumbo no organismo de Bruno, o que levou a polícia a suspeitar de envenenamento por substância similar à encontrada na residência de Cíntia. Durante buscas, os agentes apreenderam um frasco de veneno antipulgas e restos de feijão contaminado, supostamente servido aos jovens. O celular da acusada também foi recolhido, e houve pedido de quebra de sigilo telefônico e análise pericial dos materiais.

As motivações e o perfil psicológico

Para os investigadores, o crime teria sido motivado por ciúmes e possessividade. Cíntia, segundo relatos, nutria forte ressentimento em relação ao vínculo do marido com os filhos do casamento anterior. Um dos filhos biológicos da acusada declarou em depoimento que a mãe confessou ter feito “isso tudo por amor” ao companheiro — frase que se tornou símbolo da frieza e do desvio emocional apontados pelo Ministério Público.

O mesmo filho descreveu Cíntia como uma pessoa “fria, manipuladora e extremamente controladora”, que não demonstrou arrependimento. Ele contou ainda que Bruno chegou a comentar com a madrasta sobre o gosto “amargo” da comida; em seguida, ela teria colocado mais feijão no prato para disfarçar as bolinhas de chumbinho.

A Polícia Civil também investiga outras possíveis mortes suspeitas relacionadas à acusada, incluindo um ex-marido e uma ex-vizinha que teriam falecido de forma repentina em circunstâncias semelhantes.

Prisão e tentativa de suicídio

Ao saber que estava prestes a ser presa, Cíntia tentou suicídio, mas sobreviveu. Após receber alta médica, foi encaminhada à delegacia, onde, orientada por um advogado, optou por não prestar depoimento e alegou que só falaria em juízo. A Justiça decretou prisão temporária de 30 dias, que depois foi convertida em prisão preventiva pela gravidade dos fatos e risco de fuga.

Repercussão pública e mobilização

Desde a morte de Fernanda, a história se tornou um símbolo de busca por justiça e enfrentamento à impunidade. A mãe, Jane Cabral, transformou a dor em denúncia pública e passou a atuar em campanhas de conscientização sobre violência doméstica, abuso de confiança e feminicídio simbólico. Ela relata que Cíntia visitava a filha diariamente no hospital, “como se nada tivesse acontecido”, e até a abraçou no enterro. “Uma mulher dessas não pode ser chamada de ser humano. Isso é um monstro.”, declarou Jane em entrevista.

Nas redes sociais, milhares de pessoas manifestaram apoio à família. Advogados, coletivos de direitos humanos e ativistas vêm acompanhando o caso desde o início, reforçando o papel das mídias digitais como ferramenta de mobilização popular e de pressão por justiça.

O advogado da família, Raphael Forte, afirmou em postagem recente:

“A família carrega essa dor há muito tempo e agora espera que a autora seja, enfim, responsabilizada. Justiça por Fernanda. Justiça por Bruno.”

O julgamento

Nesta etapa, o júri popular deve ouvir as testemunhas remanescentes, entre elas o delegado Flávio Ferreira Rodrigues, a perita Gabriela Soares, Jane Carvalho Cabral (mãe das vítimas) e Bruno Cabral, o sobrevivente. O depoimento de Bruno é considerado crucial para o desfecho do julgamento, pois ele é a única vítima viva e poderá confirmar detalhes do envenenamento.

O Ministério Público sustenta a acusação de homicídio qualificado e tentativa de homicídio, com agravantes de motivo torpe, uso de veneno e impossibilidade de defesa das vítimas. Se condenada, Cíntia Mariano poderá pegar pena superior a 40 anos de prisão.

Símbolo de resistência

O caso ultrapassou os limites do processo criminal e se tornou um símbolo de resistência das famílias de vítimas, especialmente mulheres, contra o apagamento da violência. A mobilização nas redes é vista como um fenômeno de engajamento coletivo em torno da dor e da luta de uma mãe que se recusa a aceitar o silêncio. “Juntos somos mais fortes!”, escreveu Jane em uma das postagens que viralizaram. A frase virou um lema entre apoiadores que prometem lotar o tribunal na manhã desta terça-feira.

Relembre o caso:

Madrasta presa por suspeita de envenenar enteados

Possível ligação com outras mortes

Além das acusações que leram a sua prisão, a polícia investiga relatos apontam que tanto o ex-marido de Cintia, quanto uma ex-vizinha, que também morreram repentinamente. A investigação vai buscar indícios de que ambos tenham morrido por causa semelhante à da enteada.

Cintia tem ao menos dois filhos biológicos, frutos de um relacionamento anterior, além de duas crianças geradas com o atual marido. Dois dias após a morte de Fernanda – 29 de março -, Cíntia postou uma nova foto com a música “Estrelinha”, de Marília Mendonça. Um trecho da música diz: “Quando bater a saudade, olhe aqui pra cima. Sabe lá no céu, aquela estrelinha, que eu muitas vezes mostrei pra você? Hoje é minha morada; a minha casinha”(SIC).

“Uma mulher dessas não pode ser chamada de ser humano. Isso é um monstro”. Foi assim que a empresária Jane Carvalho Cabral se referiu à madrasta de seus dois filhos – “Ela visitou a minha filha no hospital todos os dias, como se nada tivesse acontecido. E me abraçou no enterro, embora não parecesse comovida. Mas, até então, eu pensava apenas que era o jeito dela” — conta Jane.

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