Agroecologia transforma favelas em territórios de saúde e resistência

Com apoio do Plano Integrado de Saúde nas Favelas, mais de 30% das ações nas comunidades do Rio de Janeiro já promovem a agroecologia como estratégia de saúde integral e soberania alimentar. Hortas urbanas, quintais produtivos, feiras locais e redes comunitárias florescem em territórios marcados por desigualdade e racismo ambiental, oferecendo não só alimentos saudáveis e livres de agrotóxicos, mas também dignidade e autonomia.

Essas iniciativas vão além da produção agrícola: são ferramentas de transformação social, cuidado com o meio ambiente e fortalecimento de vínculos comunitários.

“Cada horta que floresce nas favelas é uma semente de justiça social, ambiental e alimentar”, destaca Richarlls Martins, coordenador do plano.

A agroecologia se consolida como resposta frente à degradação ambiental e ao uso excessivo de agrotóxicos — realidade que expõe famílias inteiras a riscos tóxicos, como alertam estudos da Abrasco. O cultivo comunitário, por outro lado, se torna ato político de resistência e bem viver.

Projetos como Donas da Agro, Teia das Pretas e Favela Agroecológica articulam ações que vão da saúde mental à restauração ambiental. A rede cresceu tanto que, em 25 de outubro, será realizado o Pré-II Encontro Estadual de Saúde, Favela e Agroecologia no Museu Bispo do Rosário, reunindo coletivos e organizações para troca de saberes e fortalecimento das práticas sustentáveis.

Mapeando hortas e cozinhas comunitárias nas 16 favelas da Maré, o projeto Alimentação Saudável na Maré, da Germinal Assessoria, fortalece a segurança alimentar com participação cidadã. Já o coletivo AS-PTA, por meio da iniciativa Agroecologia nas Favelas, constrói uma agenda de saúde integral baseada em práticas agroecológicas e redes de sociabilidade.

Na Zona Oeste, a “Teia das Pretas”, da Associação do Quilombo Dona Bilina, articula ações com foco em soberania alimentar e saúde mental, em parceria com a Fundação Angélica Goulart. A própria fundação mantém a Favela Agroecológica Produz Saúde, que desenvolve hortas e cultivos medicinais com foco em autocuidado.

Na Baixada e em Niterói, projetos como o Semear é Vital da Favela Verde e o Donas da Agro da Associação Mulheres da Parada, resgatam saberes tradicionais e fortalecem o papel das mulheres no cuidado com a terra e o meio ambiente. A ACECARJ, por sua vez, promove a educação em saúde e agroecologia com enfrentamento à fome em diversas comunidades.

Outras iniciativas, como a Escola Popular de Cozinhas Solidárias, da Associação Cidade para Todos, e o projeto “Semeando um Novo Mundo”, do Coletivo Popularize, integram educação popular, segurança alimentar e economia solidária, ampliando a consciência sobre alimentação saudável e sustentável.

Essas experiências mostram que, nos territórios populares, a agroecologia é também estratégia de vida, saúde e transformação social. Além de alimento, o que se cultiva nas favelas é pertencimento, ancestralidade, cuidado e futuro. As cozinhas solidárias, os viveiros de mudas e os canteiros medicinais espalhados pelas comunidades são a expressão viva de que a agroecologia é, acima de tudo, uma política de defesa da vida.

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