Vinicius Junior realizou o sonho de milhares de meninos pretos e pobres que veem no futebol a esperança de um futuro melhor. Muitos deles sequer chegam às bases dos clubes brasileiros. Milhares têm suas vidas interrompidas pelo crime e pela guerra velada que existe no estado do Rio de Janeiro, onde os maiores alvos são os meninos que sonham em ser como Vinicius Junior.
A bola surrada, que encontra os pés descalços sobre o chão de barro, é o cenário que pinta a vida de quem sai dos bairros do Rio de Janeiro. Mas, junto dela, vêm a fome, a casa inadequada, o choro da mãe solo, o crime aliciando a todo momento e a enorme dúvida sobre estar vivo mais um dia.
Subiu hoje para receber esse prêmio não apenas o Vinicius Junior, mas também as milhares de crianças negras cujos sonhos são arrancados desde jovens. Foram elas que estiveram no topo do mundo. E eu não me iludo achando que haverá outro tão cedo. Por isso, celebro essa conquista com tamanha alegria, pois o rosto do futebol brasileiro é esse: negro, empobrecido, com um sorriso que constrange aqueles que não entendem o tamanho dessa vitória.
No mundo, existe um boicote racista claro contra Vinicius. Dizem que ele reclama demais, que é desrespeitoso com seus dribles, suas danças e sua festa. Mas o que eles realmente querem dizer é que um negro não pode falar de racismo; tem que jogar futebol calado.
Vinicius enfrentou estádios racistas, ameaças de morte, jogadores em campo, árbitros que mudam a regra quando o lance é com ele. Ele enfrentou a Espanha ao denunciar os casos de racismo. E tentaram tirar dele a voz, mas não conseguiram. Hoje, o povo e os fãs deram a ele o prêmio The Best. Porque cada criança, mundo afora, liga a TV para ver o Vini jogar. Famílias vão ao estádio para vê-lo jogar. E isso, isso ninguém pode mudar.
Hoje, o futebol venceu, mas não qualquer futebol. Não o futebol de Rodri, que sempre jogou em gramados impecáveis da Espanha, ao lado de amigos, com as melhores bolas e chuteiras, sem se preocupar com o que fazer se não desse certo. Não esse futebol europeu frio, que não sorri, que não “baila”, que usa terno e nunca tira os sapatos de luxo.
Eu estou falando do futebol descalço sobre a terra vermelha, que revelou Pelé, com seus dribles e precisão. Desse futebol dos campinhos enlameados, onde, quando chove, mal dá para se mover, mas que revelou Garrincha, com suas pernas tortas e dribles desconcertantes, onde todo adversário se tornava um “João Bobo”. Estou falando do futebol jogado nas ruas, que arrancam o tampão do dedão, mas que revelou Ronaldo, com sua alegria e gols inacreditáveis. Desse futebol de golzinho de chinelo, que revelou Ronaldinho Gaúcho, mágico com a bola nos pés.
É esse futebol que venceu hoje, o futebol que respira em Vinicius Junior.
Por João Oscar – Militante político, jornalista e articulador da Instituição ComCasua de Direitos Humanos
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