Quase 9 em cada 10 alegações sobre saúde checadas pela Lupa são falsas

Dia Internacional da Internet Segura

Relatório do Observatório Lupa analisou quase dez anos de checagens e identificou a circulação de falsas curas, informações enganosas sobre vacinas e conteúdos compartilhados pelo WhatsApp.

O avanço da desinformação sobre saúde no Brasil representa um desafio para a prevenção de doenças, a vacinação e o acesso da população a informações confiáveis. Um levantamento divulgado em outubro de 2026 pelo Observatório Lupa, núcleo de pesquisa da Agência Lupa, com apoio da Afya, revelou que 87,3% das 764 alegações sobre saúde analisadas entre 2017 e 30 de junho de 2026 foram classificadas como falsas. O estudo reúne quase uma década de verificações e mostra como conteúdos enganosos continuam circulando nas redes sociais, muitas vezes apresentados como recomendações médicas ou soluções simples para problemas complexos.

Intitulado Raio-X da Desinformação em Saúde, o relatório examinou 498 checagens que reuniram 764 alegações. Desse total, 667 foram consideradas falsas. Em média, o levantamento identificou mais de uma alegação falsa de grande alcance por semana.

É importante destacar que os 87,3% se referem às afirmações selecionadas e verificadas pela agência, não à totalidade das informações sobre saúde publicadas na internet.

Covid-19 e promessas de cura lideram conteúdos analisados

Entre os temas mais frequentes nas checagens, a Covid-19 apareceu em 61% dos conteúdos, seguida por tratamentos, curas e métodos de prevenção, com 34%, e alimentos, bebidas e nutrição, com 24%. Os percentuais podem se sobrepor, já que uma mesma publicação pode abordar mais de um assunto.

A pesquisa também identificou que a desinformação sobre vacinação permaneceu relevante mesmo depois do período mais crítico da pandemia. Das 244 alegações relacionadas a vacinas examinadas, 86,9% foram consideradas falsas.

Esse cenário preocupa porque informações enganosas podem estimular a rejeição de vacinas, favorecer a automedicação e levar pessoas a abandonar tratamentos recomendados por profissionais de saúde.

WhatsApp aparece em mais de 70% das checagens

O WhatsApp esteve presente em 70,5% das checagens analisadas, mostrando a importância dos aplicativos de mensagens na circulação dos conteúdos investigados.

Receitas caseiras apresentadas como curas, áudios atribuídos a médicos, mensagens alarmistas e vídeos sem identificação de origem são exemplos de formatos utilizados para transmitir informações sem comprovação científica.

O relatório ressalta, entretanto, que a presença frequente do WhatsApp não permite concluir que a plataforma seja a origem ou concentre a maior parte da desinformação sobre saúde. O próprio canal de recebimento de denúncias da Lupa pode influenciar essa distribuição. Os resultados também foram destacados pela Agência Brasil, que chamou atenção para os riscos da circulação de informações falsas sobre tratamentos e prevenção de doenças.

Falsos especialistas e inteligência artificial ampliam os riscos

Uma das estratégias identificadas pelo Observatório Lupa é o uso indevido da imagem e da reputação de profissionais de saúde para dar credibilidade a afirmações falsas. Em alguns casos, mensagens atribuem orientações inexistentes a médicos conhecidos. Em outros, vídeos manipulados por inteligência artificial simulam declarações de especialistas ou apresentam informações científicas fora de contexto.

A pesquisa também aponta o uso de mensagens que provocam medo e urgência, além de promessas de soluções milagrosas para doenças como câncer e diabetes. Essas estratégias exploram a preocupação das pessoas com a própria saúde e com o bem-estar de familiares, aumentando a possibilidade de compartilhamento sem verificação.

Informação confiável também é uma questão de direito à saúde

O enfrentamento da desinformação exige mais do que a responsabilidade individual de verificar mensagens. Também depende de políticas públicas de comunicação, educação em saúde, acesso a profissionais qualificados e divulgação de informações científicas em linguagem acessível.

Nas periferias e nos territórios socialmente vulnerabilizados, onde o acesso aos serviços pode enfrentar barreiras, a circulação de orientações falsas representa um risco adicional. Mensagens enganosas podem dificultar a busca por atendimento e comprometer decisões relacionadas à prevenção e ao tratamento de doenças.

A defesa do direito à informação, portanto, está diretamente relacionada à promoção dos direitos humanos e à proteção da vida.

Cinco cuidados para não compartilhar desinformação sobre saúde

Antes de encaminhar uma receita caseira, um vídeo ou uma orientação recebida pelas redes sociais, algumas atitudes ajudam a evitar a propagação de informações falsas:

Verificar a origem da mensagem e identificar se a informação foi publicada por uma instituição de saúde reconhecida.

Desconfiar de promessas de cura rápida, tratamentos milagrosos e soluções que afirmam funcionar para todas as pessoas.

Conferir se médicos ou pesquisadores mencionados realmente fizeram as declarações atribuídas a eles.

Consultar fontes oficiais, como o Ministério da Saúde, a Fiocruz e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Evitar compartilhar mensagens alarmistas ou orientações sobre medicamentos sem antes confirmar sua veracidade.

Receitas caseiras não substituem diagnósticos, vacinas, medicamentos prescritos ou acompanhamento profissional. Em caso de dúvida sobre tratamentos, a orientação deve ser buscada junto aos serviços de saúde.

Combater a desinformação é defender a vida

O levantamento reforça que a desinformação sobre saúde não terminou com a pandemia. Ela passou a incorporar novas tecnologias, explorar preocupações relacionadas a doenças e utilizar a credibilidade de profissionais e instituições para alcançar mais pessoas.

Fortalecer a comunicação comunitária, ampliar o acesso à informação científica e estimular a verificação de conteúdos são medidas fundamentais para proteger a população.

Afinal, uma mensagem falsa sobre saúde não representa apenas um problema de comunicação. Dependendo de seu conteúdo e de suas consequências, pode colocar vidas em risco.

Fonte e informações complementares

Observatório Lupa — Da pandemia aos vídeos com IA desinformação em saúde repete mecanismos de persuasão

Agência Brasil — Quase 90% de conteúdos virais sobre saúde são falsos

 

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