O cinema brasileiro está de luto. Faleceu nesta sexta-feira, 5 de setembro de 2025, no Rio de Janeiro, o cineasta e documentarista Silvio Tendler, aos 75 anos, vítima de infecção generalizada. Internado no Hospital Copa Star, em Copacabana, o diretor resistia, há anos, às consequências de uma neuropatia diabética, condição que havia lhe imposto severas limitações físicas, mas jamais interrompeu sua produção criativa ou seu engajamento político.
Mais que um realizador de filmes, Tendler foi um contador de memórias do Brasil. Seu nome está associado à construção de um cinema de denúncia, de homenagem e de resgate — que colocou no centro da tela aqueles que a História oficial tentou apagar. Chamado de “cineasta dos sonhos interrompidos” e também de “cineasta dos vencidos”, ele dedicou mais de cinco décadas à tarefa de recuperar figuras, projetos e narrativas que desafiaram o autoritarismo e lutaram por justiça social.
Do Rio de Janeiro para o mundo: formação e compromissos
Silvio nasceu em 12 de março de 1950, na cidade do Rio de Janeiro, em plena efervescência do pós-guerra. Estudou História na Universidade de Paris VII (Jussieu), em meio à ebulição cultural e política da França no final dos anos 1960. Foi assistente de Chris Marker, um dos pilares da “escola do ensaio fílmico”, e ali moldou sua concepção de cinema como arma crítica e instrumento de memória.
De volta ao Brasil, com o país mergulhado nos anos de chumbo da Ditadura Militar, Tendler encontrou no documentário um caminho de resistência. Em 1980, estreou com Os Anos JK – Uma Trajetória Política, reconstruindo a figura de Juscelino Kubitschek e desafiando o revisionismo imposto pela repressão. Quatro anos depois, lançaria Jango — um dos mais emblemáticos e populares filmes políticos da história do cinema brasileiro, assistido por mais de 1 milhão de espectadores em seu lançamento.
Uma filmografia que é espelho da história
A obra de Tendler não se resume a biografias. Ela constitui, por si só, uma narrativa paralela da história recente do Brasil e do mundo. Em Utopia e Barbárie (2008), percorre experiências transformadoras (e fracassadas) da segunda metade do século XX. Em Encontro com Milton Santos: O Mundo Global Visto do Lado de Cá (2006), traduz com maestria as críticas do geógrafo baiano à lógica neoliberal e ao capitalismo financeiro. Em O Veneno Está na Mesa (2011) e sua continuação (2014), denuncia o uso abusivo de agrotóxicos no campo brasileiro, contribuindo decisivamente para a mobilização da sociedade civil.
Seu documentário Glauber, o Filme – Labirinto do Brasil (2003) é um retrato poético e político de Glauber Rocha, outro gênio rebelde do audiovisual nacional. Tendler filmava com paixão, mas também com método: usava arquivos, imagens históricas, entrevistas, música e narração para compor uma linguagem reconhecível, mas sempre provocadora.
Cinema como ferramenta de memória coletiva
Poucos cineastas conseguiram fazer do documentário uma experiência coletiva como Silvio Tendler. Seus filmes ultrapassaram os circuitos acadêmicos e universitários e chegaram às escolas, sindicatos, cineclubes, feiras populares, bibliotecas públicas, universidades e TVs abertas. Seu compromisso era com o povo — com os que sonharam e com os que ainda sonham.
Mais recentemente, em 2023, lançou o longa O Futuro é Nosso!, reafirmando sua crença na juventude como força renovadora da sociedade e apostando na utopia como método. Era, afinal, um autor que nunca se rendeu ao cinismo — nem mesmo quando o país parecia caminhar para o retrocesso.
Educação, cineclubismo e cidadania
Além da Caliban Filmes — produtora que fundou e dirigiu —, Tendler manteve, por mais de 40 anos, uma sólida atuação como professor universitário na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), onde foi uma referência para estudantes de Comunicação Social. Inspirou gerações de jornalistas, cineastas, educadores e militantes da cultura.
Também liderou iniciativas voltadas ao cineclubismo e à formação de novos públicos para o audiovisual. Era presença constante em debates, mesas-redondas, festivais, conferências e projetos educacionais, especialmente os voltados às periferias urbanas e à juventude popular.
Premiações e homenagens
Silvio Tendler foi agraciado com dezenas de prêmios nacionais e internacionais. Recebeu, entre outros, a Ordem de Rio Branco (2006), por sua contribuição à diplomacia cultural brasileira, e a Ordem do Mérito Cultural (2025), concedida pelo Ministério da Cultura, poucos meses antes de sua morte.
Mas, acima das honrarias institucionais, foi o reconhecimento do povo que mais o emocionava. Era reverenciado em feiras de livros, mostras populares, salas de aula e comunidades rurais. Sua obra era estudada não apenas por especialistas, mas por militantes, professores da rede pública, comunicadores populares e jovens estudantes.
Uma despedida comovente
O velório de Silvio Tendler será realizado neste domingo (7), às 11h, no Cemitério Comunal Israelita do Caju, no Rio de Janeiro. Diversas instituições culturais, universidades, emissoras públicas e movimentos sociais emitiram notas de pesar, celebrando seu legado e reafirmando o compromisso com a memória histórica e a democracia.
“Silvio Tendler foi o cronista audiovisual de um Brasil que insiste em resistir. Um homem que filmou com o coração e com o olhar voltado para os que não têm voz nos livros oficiais”, escreveu o Instituto Nacional de Cinema.
Uma herança que segue viva
Silvio partiu, mas deixa um vasto acervo, acessível em plataformas públicas como o TV Brasil Play e em arquivos físicos e digitais de universidades e coletivos culturais. Suas obras seguem sendo instrumentos de formação política, crítica histórica e inspiração para novos realizadores.
A perda é imensa. Mas seu legado é maior. Como ele mesmo dizia:
“A utopia é o motor da história. O que move o ser humano é o desejo de fazer diferente.”
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