Vitória Régia imagina o sucesso do “Punhal Verde e Amarelo” e o pesadelo político sobre o Brasil

Vitória Régia – A Resposta Somos Nós - ComCausa PortalC2 Imagem internet do filme

Vamos imaginar: e se o plano “Punhal Verde e Amarelo” tivesse dado certo? E se os principais nomes da cadeia de poder da República tivessem sido eliminados? E se a minuta do golpe, que foi impressa, segundo o próprio Bolsonaro, tivesse sido assinada por ele? E se os ataques de 8 de janeiro de 2023, em vez de fracassarem, tivessem aberto caminho para a consolidação de um golpe de Estado no Brasil?

Nesse cenário, embora as investigações apontem o ex-presidente Jair Bolsonaro como um dos principais beneficiários políticos da ruptura, ele próprio talvez não conseguisse se firmar no comando do novo regime, visto até entre os seus como uma figura incompetente, com a familia corroída por conlfitos e denúncias de corrupção. Em seu lugar, assumiria uma engrenagem militar autoritária mais ampla, com apoio dos Estados Unidos, mergulhando o país em uma ditadura.

É desse “e se?” brutal que parte Vitória Régia – A Resposta Somos Nós. O filme toma um material que já existiu no mundo real — a conspiração, os nomes, a preparação, a linguagem de guerra, a ideia de eliminar autoridades e reordenar o país pela força — e o empurra para seu resultado extremo: o da vitória da ruptura.

A partir daí, Vitória Régia constrói sua ficção: não a de um líder isolado que se eterniza sozinho no poder, mas a de um sistema autoritário que, uma vez instalado, passa a funcionar por conta própria. O beneficiário inicial da ruptura seria o campo golpista; mas o país que emerge do filme é mais sombrio do que a simples permanência de um nome. É um Brasil administrado por uma engrenagem militar, policial, econômica e informacional que destrói instituições, dissolve freios democráticos e converte a exceção em rotina. Sua população, violenta e armada, se mata nas ruas, absorta em um falso moralismo, com um sistema financeiro controlado por bets e empresas internacionais.

É justamente isso que torna a abertura tão forte: ela pega a realidade conhecida e a faz atravessar a última porta. É nesse ponto que entram as manchetes das imagens que aparecem no filme.

A primeira manchete, “Atentado de 8 de janeiro: presidente, vice e ministro do STF assassinados”, já impõe o tom mais brutal da narrativa. Ela transforma a crise política em ruptura total. O que poderia ser lido como tensão institucional vira, no universo do filme, um ponto sem retorno. É a chamada que inaugura o caos e sugere que a democracia foi destruída de modo violento.

Em seguida, “Militares assumem todos os ministérios” aprofunda essa lógica. Não se trata apenas de troca de governo, mas de militarização completa do Estado. Quando a imagem menciona o fechamento de órgãos como Ibama, ICMBio, Funai e universidades, o filme deixa claro que esse novo regime não quer apenas governar: quer desmontar a proteção ambiental, os direitos indígenas, a produção de conhecimento e o pensamento crítico. A distopia, nesse ponto, ganha corpo institucional.

A frase “Amazon of America: Amazônia é entregue aos EUA” talvez seja a mais simbólica de todas. Ela condensa uma das grandes teses do curta: a perda de soberania sobre a Amazônia. O filme imagina um Brasil em que a floresta deixa de ser tratada como território nacional e passa a ser vista como ativo estrangeiro, área de exploração e moeda política. Essa imagem ganha ainda mais força porque a própria divulgação do filme descreve a trama como a história de um país em que, após um golpe com apoio dos Estados Unidos, a Amazônia é entregue a interesses norte-americanos e rebatizada dessa forma.

As manchetes sobre incêndios, onda de calor, satélites contra o desmatamento desligados e água racionada em 17 estados mostram a dimensão ambiental da tragédia. O curta não sugere apenas um regime autoritário; ele apresenta um regime que produz desastre ecológico em escala nacional. A crise climática aparece como consequência direta da destruição institucional. Essa leitura dialoga com a própria campanha que cerca o filme, apresentada como um chamado de povos da floresta, das águas, do campo e das cidades por justiça climática, proteção territorial e combate ao desmatamento.

A imagem de notpícias sobre a “fila do osso”, do desemprego recorde, do racionamento de energia e dos refugiados brasileiros amplia o alcance da distopia. O colapso não atinge só a floresta ou os povos indígenas; ele chega ao cotidiano, à comida, ao trabalho e à sobrevivência. O filme diz, por meio dessas manchetes, que o autoritarismo não destrói apenas liberdades abstratas: ele rebaixa a vida material das pessoas.

Quando surge “Indígenas desaparecem. Governo silencia.”, o curta chega a um de seus pontos mais graves. Aqui, a violência deixa de ser apenas institucional e se torna também étnica, territorial e humana. O desaparecimento de povos inteiros e o silêncio oficial indicam que a política do regime é também uma política de apagamento. Essa ideia conversa diretamente com a proposta pública do filme, apresentada como um manifesto em que o movimento indígena assume protagonismo nas disputas sobre território, floresta e futuro.

Por fim, “Redes sociais monitoradas: cidadão preso por posts ‘subversivos’” mostra o controle da palavra e do pensamento. O filme sugere que, depois de dominar instituições, território e informação, o regime passa a vigiar a própria fala dos cidadãos. É a etapa clássica da consolidação autoritária: não basta governar, é preciso controlar o que pode ser dito.

Não se trata de spoiler

Essa construção por manchetes reforça a própria sinopse divulgada do curta. Segundo a apresentação pública de Vitória Régia – A Resposta Somos Nós, a trama se passa em uma realidade paralela em que um candidato derrotado nas urnas consegue dar um golpe de Estado com apoio dos Estados Unidos, a Amazônia é entregue a interesses externos e rebatizada de “Amazon of America”, enquanto uma resistência formada por povos indígenas e comunidades quilombolas tenta enfrentar o novo regime. Inserido na campanha A Resposta Somos Nós, o filme também se conecta a um chamado político mais amplo do movimento indígena por justiça climática, defesa da vida e proteção dos territórios.

O peso dramático do filme também passa pela equipe e pelo elenco. A divulgação pública informa que a obra é protagonizada por Alice Braga, idealizada pelo coletivo Zero, produzida pela Vetor Zero, escrita por Carol Pires e dirigida por Cisma, com Pedro Inoue na direção criativa e na produção executiva. O material divulgado destaca ainda a consultoria indígena de Alana Manchineri e Dinamam Tuxá, além da presença de Caio Horowicz, Marina Person, Marat Descartes, Hodari, Ywyzar Tentehar e Ayra Kopém.

Punhal Verde e Amarelo

Mas o filme ganha ainda mais força quando lido à luz da trama golpista real que o inspira. Ao evocar o “Punhal Verde e Amarelo”, o curta imagina o que teria acontecido se a conspiração investigada tivesse conseguido atravessar o último limite: o da destruição física da ordem democrática. Segundo decisões e notícias oficiais do STF, a denúncia descreveu o plano como parte da engrenagem da tentativa de golpe, atribuindo ao general da reserva Mário Fernandes a elaboração de um documento que previa o assassinato de autoridades como Luiz Inácio Lula da Silva e Alexandre de Moraes. No julgamento do Núcleo 2, o STF afirmou que havia elementos que vinculavam Mário Fernandes e Marcelo Costa Câmara ao plano, cujo objetivo seria manter o grupo no poder pela força, ainda que isso implicasse matar autoridades, destruir instituições e gerar caos social.

É nesse ponto que a hipótese do filme se torna especialmente perturbadora. Porque Vitória Régia não projeta apenas a permanência de um líder no poder; projeta a consolidação de um sistema autoritário autônomo, capaz de sobreviver até mesmo ao desgaste de suas figuras mais visíveis. Na vida real, o STF condenou os oito réus do Núcleo 1 da tentativa de golpe, entre eles Jair Bolsonaro, Braga Netto, Augusto Heleno, Alexandre Ramagem, Anderson Torres, Almir Garnier, Paulo Sérgio Nogueira e Mauro Cid. Também condenou cinco dos seis réus do Núcleo 2, absolvendo Fernando de Sousa Oliveira. Em outra frente, decisões do tribunal registraram prisões preventivas e acusações contra militares e um agente da PF apontados como participantes das ações mais violentas e táticas da trama.

Por isso o filme trabalha tão bem com a ideia de engrenagem. Ele parte de nomes, documentos, investigações, monitoramentos e planos que existiram no mundo real, mas os reorganiza em chave distópica para mostrar o país que poderia emergir da vitória da ruptura. Nesse Brasil imaginado, a violência não aparece como excesso passageiro, mas como forma estável de governo: uma máquina militar, policial, econômica e informacional que desmonta instituições, normaliza a exceção e transforma o medo em método. É essa passagem do fato político para a lógica do regime que dá ao curta sua densidade mais inquietante.

Ministério da Verdade

As manchetes, então, funcionam como degraus dessa transformação. Cada uma delas amplia a percepção de que a barbárie não chega pronta: ela se instala em etapas. Primeiro, a eliminação violenta da ordem democrática. Depois, a ocupação das instituições. Em seguida, o ataque ao território, à informação, à água, ao alimento, ao pensamento crítico e aos próprios povos que sustentam historicamente a defesa da floresta. O curta entende que não há separação entre autoritarismo, devastação ambiental e apagamento de povos originários. Ao contrário: ele sugere que essas três dimensões se reforçam mutuamente.

Por fim, há ainda uma referência importante ao universo de 1984, de George Orwell. Uma das imagens menciona a criação do “Ministério da Verdade”, evocando diretamente a distopia orwelliana. A referência reforça a ideia de manipulação sistemática da linguagem, da informação e da memória. Do mesmo modo, a frase “A verdade vos libertará”, deslocada para esse contexto de mentira institucionalizada, aparece esvaziada e pervertida, como se o próprio regime sequestrasse palavras historicamente associadas à verdade para transformá-las em instrumentos de dominação.

Ficha técnica:

Título: Vitória Régia – A Resposta Somos Nós
Gênero: distopia
Direção: Denis Kamioka (Cisma)
Produção: Vetor Zero
Roteiro: Carol Pires e Fábio Leal
Direção criativa / produção executiva: Pedro Inoue
Consultoria indígena: Alana Manchineri e Dinamam Tuxá
Campanha: A Resposta Somos Nós
Elenco: Alice Braga, Ywyzar Tentehar, Marina Person, Ayra Kopém, Caio Horowicz, Marat Descartes e Hodari
Na ficha enviada por você, os papéis aparecem assim: Alice Braga como Carol; Ywyzar Tentehar como Naiá; Marina Person como Marina; Ayra Kopém como Eva; Caio Horowicz como Pedro; Marat Descartes como Fernando; Hodari como garçom.
Música: Kaê Guajajara
Cinematografia: Will Etchebehere
Edição: Ricardo Farias e Rodrigo Menecucci
Idioma: português

Veja o curta completo:

Imagem de capa ilustratica do filme

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