Segundo lançamento do álbum “Continental” aborda a vigilância sobre homens negros, reivindica o respeito às religiões de matriz africana e transforma o encontro entre o amém e o axé em expressão de resistência
O Black Pantera lançou “Hórus”, segundo single de Continental, quinto álbum de estúdio do trio mineiro. Apresentada depois de “Start The Game”, a nova faixa aborda a forma como homens negros são constantemente observados, julgados e tratados de maneira diferente pela sociedade. Ao relacionar essa experiência à fé, ao sincretismo religioso e à ancestralidade africana, a banda transforma a música em um pedido de proteção e, ao mesmo tempo, em uma denúncia do racismo estrutural.
Uma das primeiras composições desenvolvidas para o novo disco, “Hórus” também marca uma ampliação dos caminhos sonoros percorridos pelo Black Pantera. Segundo a apresentação oficial da gravadora Deck, a faixa traz um arranjo vocal e uma construção melódica que se diferenciam parcialmente da discografia anterior do grupo, revelando um momento de amadurecimento artístico sem abandonar o peso do hardcore, do punk e do metal que acompanha a trajetória da banda.
O olhar racista e a vigilância sobre o homem negro
A música parte de uma experiência concreta vivenciada pelos próprios integrantes do Black Pantera: a sensação de estar permanentemente sob observação. Não se trata apenas do olhar direcionado a artistas que ocupam um palco, mas de uma vigilância social marcada por suspeita, preconceito e hostilidade, que acompanha homens negros em lojas, ruas, transportes, estabelecimentos comerciais, espaços de trabalho e ambientes nos quais sua presença ainda é tratada como inesperada.
O baixista e vocalista Chaene da Gama explica que esses olhares muitas vezes chegam carregados de maldade e da intenção de enxergar pessoas negras de forma negativa. É nesse ponto que a espiritualidade entra na composição. Diante do mau-olhado, da desconfiança e dos julgamentos antecipados, “Hórus” recorre à fé como instrumento de proteção.
A denúncia apresentada pela banda dialoga com uma realidade histórica. No Brasil, homens negros continuam sendo tratados como suspeitos antes mesmo de qualquer ação. A roupa, o cabelo, o comportamento, a expressão corporal e até o silêncio podem ser interpretados a partir de estereótipos racistas. Em muitos casos, essa leitura produz constrangimentos, perseguições, abordagens violentas e exclusão de espaços sociais.
Ao transformar essa experiência em música, o Black Pantera mostra que o problema não está no corpo negro, mas em uma sociedade que ainda o observa por meio de referências construídas durante a escravização e o colonialismo. “Hórus” denuncia esse olhar e reivindica o direito de existir sem que a presença negra seja automaticamente associada ao perigo, à criminalidade ou à ameaça.
Entre o amém e o axé
A espiritualidade ocupa uma posição central na faixa. Segundo Chaene da Gama, a canção estabelece um encontro entre o amém e o axé, reunindo elementos do cristianismo e das religiões de matriz africana em um pedido de proteção contra o mau-olhado. Essa combinação não aparece apenas como recurso poético ou estético, mas como referência à história do sincretismo religioso no Brasil.
Durante a escravização, africanos e seus descendentes foram proibidos de exercer livremente suas crenças e tradições. Diante da violência colonial e da imposição religiosa, comunidades negras desenvolveram diferentes estratégias para preservar divindades, rituais, símbolos e conhecimentos ancestrais. A aproximação entre santos católicos e entidades africanas foi uma dessas formas de sobrevivência cultural.
O sincretismo representado em “Hórus” recupera essa história. A banda reconhece que os ancestrais negros precisaram adaptar publicamente suas práticas para que suas culturas continuassem existindo. Por isso, a união entre o amém e o axé não apaga as diferenças entre as religiões, mas evidencia a resistência de povos que se recusaram a abandonar suas referências espirituais.
O “preto-santo” e o combate ao racismo religioso
O refrão divulgado pela gravadora — “No nome do pai, do filho, do preto-santo” — concentra uma das principais mensagens políticas da composição. Ao introduzir a figura do “preto-santo” em uma fórmula tradicionalmente ligada ao cristianismo, o Black Pantera questiona a exclusão histórica das pessoas negras das representações de santidade, pureza e divindade.
Por séculos, imagens religiosas europeias apresentaram figuras sagradas como brancas, enquanto tradições africanas foram classificadas como primitivas, malignas ou inferiores. Essa construção ajudou a justificar a perseguição aos cultos africanos e permanece presente na demonização do candomblé, da umbanda e de outras manifestações religiosas afro-brasileiras.
Ao reivindicar o “preto-santo”, a banda disputa esse imaginário. O verso afirma que a população negra também ocupa o campo do sagrado e que suas formas de espiritualidade não podem continuar sendo associadas ao mal. A mensagem também reforça a necessidade de compreender os ataques às religiões de matriz africana como racismo religioso, pois essas agressões não atingem apenas uma crença, mas uma tradição cultural profundamente ligada à história e à identidade negra.
Terreiros e comunidades religiosas afro-brasileiras exercem funções que ultrapassam os rituais. Em muitos territórios, atuam no acolhimento, na preservação da memória, na alimentação, na transmissão de conhecimentos e na proteção de pessoas em situação de vulnerabilidade. Defender essas religiões significa, portanto, defender direitos humanos, liberdade de crença, patrimônio cultural e redes comunitárias construídas pela população negra.
O Olho de Hórus como proteção ancestral
O título da faixa faz referência ao Olho de Hórus, símbolo da cultura do Egito Antigo relacionado à proteção, à percepção, à cura e ao equilíbrio. Na apresentação oficial da música, ele também aparece como um elemento capaz de proteger contra o mau-olhado e de refletir aquilo que existe na alma.
A escolha amplia a relação do Black Pantera com a ancestralidade africana. Embora diferentes interpretações históricas tenham tentado separar simbolicamente o Egito do continente africano, a civilização egípcia integra a história da África e demonstra a diversidade, a complexidade e a produção de conhecimentos desenvolvidos no continente.
Em “Hórus”, o olho ganha um sentido contemporâneo. Ele representa a proteção necessária diante dos olhares racistas, mas também simboliza a capacidade de enxergar os mecanismos de opressão. Se a sociedade observa o homem negro com suspeita, o Olho de Hórus aparece como uma força que acompanha, protege e devolve esse olhar.
A inspiração espiritual da música também foi fortalecida por um relato recebido pela banda depois de uma apresentação. Uma fã contou ter sentido, além dos três músicos no palco, a presença de outras três entidades, como se forças ancestrais acompanhassem e sustentassem o grupo durante o show. A experiência contribuiu para a construção da ideia de que a trajetória do Black Pantera não é percorrida apenas pelos integrantes atuais, mas também pela memória e pela luta daqueles que vieram antes.
A presença negra no rock
Além da temática religiosa e racial, “Hórus” reafirma o lugar de artistas negros dentro do rock. A atuação do Black Pantera confronta a ideia equivocada de que o gênero seria essencialmente branco, ignorando a contribuição decisiva de músicos negros para o blues, o gospel, o rhythm and blues e para a própria formação do rock.
A banda ocupa o hardcore e o metal sem abandonar a identidade negra e sem suavizar sua crítica para ser aceita. Ao contrário, transforma os palcos desses gêneros em espaços de denúncia do racismo, de valorização da cultura negra e de afirmação política. Essa presença também abre caminhos para jovens músicos negros que, muitas vezes, ainda têm sua legitimidade questionada dentro da cena.
O Black Pantera demonstra que artistas negros não precisam permanecer limitados aos estilos que a indústria cultural definiu como apropriados para eles. A liberdade artística também passa pelo direito de transitar entre linguagens, produzir música pesada e tratar de ancestralidade, fé, violência racial e transformação social.
Uma oração política de resistência
“Hórus” pode ser compreendida como uma oração, mas não como uma oração marcada pela passividade. A faixa pede proteção ao mesmo tempo que denuncia as estruturas que tornam essa proteção necessária. Reconhece o poder da fé, mas não se afasta da realidade política. Valoriza o sincretismo, mas recorda que ele surgiu em meio à repressão e à necessidade de sobrevivência cultural.
O amém encontra o axé. O símbolo egípcio encontra a experiência afro-brasileira. O hardcore e o metal se aproximam da ancestralidade. E o homem negro, permanentemente observado pelos olhos do racismo, reivindica o direito de caminhar protegido pela memória, pela espiritualidade e pela força daqueles que vieram antes.
Com “Hórus”, o Black Pantera amplia sua trajetória de enfrentamento ao racismo e mostra que a luta política também pode ser construída por meio da fé, dos símbolos e da música. A canção reafirma que corpos negros não devem ser definidos pela suspeita ou pelo medo produzidos pela sociedade. Eles carregam história, conhecimento, cultura, espiritualidade e o direito pleno de existir.
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