Há mais de 160 anos, onze pessoas escravizadas iniciaram o reflorestamento da área que viria a se tornar o Parque Nacional da Tijuca, na cidade do Rio de Janeiro. Esse feito histórico, de importância ecológica e social incontestável, pode agora receber uma reparação simbólica. O Ministério Público Federal (MPF) encaminhou um ofício ao Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) propondo a construção de um memorial dedicado aos trabalhadores que, entre 1862 e 1894, plantaram mais de 185 mil mudas para restaurar a mata devastada pela monocultura do café e conter a crise hídrica que ameaçava a capital do Império.
Os nomes — Eleutério, Constantino, Manoel, Mateus, Leopoldo, Maria, Sabino, Macário, Clemente, Antônio e Francisco — constam no Projeto de Lei 605/2023, aprovado por unanimidade na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), que propõe a inclusão dos mesmos no Livro dos Heróis e Heroínas do Estado. O texto aguarda sanção do governador Cláudio Castro.
No documento enviado ao ICMBio, o procurador da República Sergio Gardenghi Suiama defende que a atual homenagem, restrita a uma pequena estátua com uma placa discreta na entrada do centro de visitantes, é insuficiente frente à magnitude histórica do feito. Segundo ele, o reconhecimento individualizado e público dos nomes e biografias desses trabalhadores não apenas é possível, como necessário.
O ICMBio respondeu, em nota, que a proposta será avaliada e que está “alinhada aos objetivos de promoção da reparação histórica”, sinalizando ainda a intenção de atualizar a sinalização da homenagem já existente.
A recuperação da floresta foi uma ação estratégica do Império para reverter os danos ambientais causados pelo desmatamento e garantir o abastecimento de água da cidade. Dom Pedro II ordenou, em 1862, a desapropriação de fazendas para o início do reflorestamento. A tarefa, executada sob regime de escravidão, envolvia técnicas precisas: cada muda deveria ser plantada com cinco palmos de distância, respeitando espécies nativas e madeiras de lei. O transporte das mudas era feito manualmente até áreas íngremes e remotas.
De acordo com o professor e pesquisador Gabriel Sales, da PUC-Rio, a floresta restaurada corresponde hoje a cerca de 14% do Parque Nacional da Tijuca. “Se ela não existisse, a temperatura do Rio seria entre quatro e seis graus mais elevada. É uma herança ambiental construída sob esforço forçado e invisibilizado”, afirmou.
Caso concretizada, a iniciativa será a primeira no país a reconhecer de forma nominada e direta o trabalho ambiental realizado por pessoas escravizadas. Um gesto simbólico, mas necessário, que reposiciona os verdadeiros “salvadores da floresta” no lugar de protagonistas da história carioca e brasileira.
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