Duas pessoas em situação de rua foram mortas a tiros e uma terceira ficou gravemente ferida na madrugada desta sexta-feira (17) em Irajá, Zona Norte do Rio. O caso evidencia a vulnerabilidade extrema de quem vive nas ruas e reacende o alerta sobre a violência contra populações sistematicamente invisibilizadas na capital fluminense.
Por volta das 4h, um carro teria parado próximo à Avenida Pastor Martin Luther King Jr., ao lado da estação de metrô de Irajá, de onde partiram diversos disparos de fuzil contra um grupo de pessoas em situação de rua que dormia sob uma marquise. Duas vítimas morreram na hora. A terceira, Jailton Anselmo, 37 anos, foi socorrida em estado grave para o Hospital Estadual Getúlio Vargas, na Penha.
Segundo o 41º BPM (Irajá), equipes foram acionadas após relatos de tiros intensos na região. A Delegacia de Homicídios da Capital (DHC) assumiu as investigações para identificar autores e motivação. Até o fechamento desta matéria, não havia suspeitos presos.
Vidas interrompidas na madrugada
Testemunhas dizem que as vítimas dormiam há dias no mesmo ponto, usando cobertores e papelão. Moradores afirmam que um dos homens, conhecido como “Baiano”, recolhia recicláveis e era “tranquilo, trabalhador e querido”. O ataque, rápido e direcionado, levanta a hipótese de execução premeditada. Investigadores não descartam ação de milicianos ou facções nem crime de ódio contra pessoas em extrema vulnerabilidade.
Um retrato da exclusão
O caso acontece em meio ao crescimento alarmante da população em situação de rua no Rio e no país. Segundo o CadÚnico, o número de pessoas vivendo nas ruas aumentou 142% desde a pandemia, chegando a cerca de 350 mil no Brasil.
Na cidade do Rio, mais de 17 mil pessoas vivem sem moradia, de acordo com levantamento recente da Prefeitura — em grande parte com sofrimento psíquico, dependência química e rompimento de vínculos, agravados pela falta de políticas estruturantes.
Para especialistas, ataques como o de Irajá traduzem a naturalização da exclusão. “A violência contra pessoas em situação de rua é silenciosa, cotidiana e raramente punida. É o retrato da negação do direito à vida”, afirma o sociólogo Carlos Eduardo Gomes, pesquisador de segurança pública e desigualdade urbana.
Ausência do Estado e apelo por justiça
Coletivos e entidades de direitos humanos cobram resposta imediata das autoridades e a responsabilização dos autores. A ComCausa emitui nota lamentando as mortes e destacou a urgência de políticas de acolhimento, saúde e proteção social.
A Defensoria Pública e o Conselho Estadual de Direitos Humanos devem acompanhar o caso. A DHC analisa imagens de câmeras na região e pede que testemunhas denunciem anonimamente pelo Disque Denúncia (2253-1177).
Nota da ComCausa
Imagem de capa ilustrativa
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