Morte de menina em UPA da Ilha gera protesto e cobrança por investigação no Rio

Ayla dos Santos, de um ano e meio, morreu após atendimento em UPA — Foto ReproduçãoTV Globo

A morte de Aylla dos Santos Lahyre de Oliveira, de 1 ano e 6 meses, após atendimento na UPA de Cocotá, na Ilha do Governador, na Zona Norte do Rio, gerou protesto, cobrança por responsabilização e pressão por esclarecimentos sobre a conduta da equipe de saúde. A criança deu entrada na unidade com queixa de dor na gengiva, mas morreu horas depois, em 16 de abril. A família contesta a explicação inicial sobre a causa do óbito e afirma que houve falhas graves no atendimento, inclusive impedimento da presença dos pais durante parte do procedimento.

Segundo o relato apresentado pela defesa da família, Aylla chegou à unidade com quadro descrito como simples, relacionado ao nascimento dos primeiros dentes. Ainda de acordo com essa versão, a menina passou pela triagem, apresentava sinais estáveis e chegou a brincar com outras crianças antes de receber a primeira medicação por via intravenosa. Após a aplicação, teria apresentado reação adversa, o que levou a equipe a administrar outros medicamentos em sequência. Nesse momento, os pais foram retirados da sala e não acompanharam o restante do atendimento, segundo a acusação.

O caso ganhou dimensão ainda maior porque a família afirma que só conseguiu obter informações mais claras horas depois, já do lado de fora da unidade, e com apoio da Polícia Militar. A defesa sustenta que houve surpresa quando foi mencionada a possibilidade de infecção urinária e sepse como causa da morte, já que esse quadro, segundo os familiares, não havia sido informado no momento da entrada da criança nem compatibilizado com a queixa inicial apresentada.

Outro ponto central da denúncia envolve a documentação do caso. A família afirma que o corpo foi encaminhado sem declaração de óbito válida e sem prontuário médico completo, o que dificultaria a perícia e a reconstituição do que ocorreu dentro da unidade, especialmente em relação às medicações administradas. O advogado da família classificou o episódio como suspeita de homicídio e defendeu apuração criminal, administrativa e técnica sobre eventual imperícia, negligência ou omissão.

A Secretaria de Estado de Saúde informou que a Fundação Saúde, responsável pela unidade, lamentou a morte da criança e abriu investigação para apurar o atendimento prestado. Segundo a manifestação oficial, a apuração interna vai analisar a evolução clínica até o óbito, mesmo após exames laboratoriais, de imagem e medicação. A pasta também contestou a informação de que a documentação não teria sido enviada ao Instituto Médico-Legal. Já a Polícia Civil informou que o caso tramita sob sigilo.

A gravidade do caso dialoga com um ponto sensível da rede pública: o papel das Unidades de Pronto Atendimento no primeiro acolhimento de quadros agudos e na estabilização de pacientes antes de eventual encaminhamento hospitalar. As UPAs integram a rede de urgência e emergência do SUS e funcionam como estrutura intermediária entre a atenção básica e os hospitais, com atendimento a casos de baixa e média complexidade e capacidade de observação inicial. Quando há suspeita de falha na assistência a uma criança tão pequena, o episódio ultrapassa o drama familiar e atinge a confiança pública no sistema de urgência.

Na Ilha do Governador, a repercussão foi imediata. Familiares e moradores organizaram ato em homenagem à criança e em defesa de justiça, com concentração em frente à Igreja São Sebastião do Cocotá e deslocamento até o Cemitério do Cacuia, onde ocorreram velório e sepultamento. O protesto transformou o luto em manifestação pública e reforçou a cobrança por respostas objetivas sobre a causa da morte, a conduta dos profissionais e as condições do atendimento prestado dentro da unidade.

O caso também pressiona o poder público a dar respostas rápidas em duas frentes. A primeira é a investigação técnica, com análise de prontuário, cronologia do atendimento, exames, medicamentos aplicados e decisão clínica da equipe. A segunda é a esfera administrativa, com eventual afastamento preventivo de profissionais, abertura de sindicância e revisão de protocolos em atendimentos pediátricos. Sem esse percurso, a morte de Aylla corre o risco de permanecer cercada por lacunas, hipótese que a família diz não aceitar.

A morte da menina expõe ainda uma discussão recorrente na saúde pública: o direito de crianças serem acompanhadas por seus responsáveis durante o atendimento, salvo em situações técnicas excepcionais devidamente justificadas. Quando esse vínculo é rompido de forma abrupta, principalmente em ambiente de emergência, o sofrimento da família se soma à suspeita de violação de direitos e à dificuldade de reconstruir os fatos com transparência. É essa combinação de dor, dúvida e falta de resposta que sustenta a pressão por uma investigação rigorosa.

Enquanto os laudos e apurações não são concluídos, o caso permanece marcado por perguntas abertas. O que começou como uma ida à UPA por dor na gengiva terminou com a morte de uma criança de um ano e meio, revolta da família e uma forte cobrança social por justiça. Na prática, a resposta das autoridades precisará ir além de notas formais e esclarecer, com precisão, o que aconteceu entre a entrada de Aylla na unidade e a confirmação do óbito.

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