A morte do ex-presidente Juscelino Kubitschek voltou a ser tratada como possível crime político após uma investigação da Comissão Municipal da Verdade Vladimir Herzog concluir que ele e o motorista Geraldo Ribeiro teriam sido vítimas de uma emboscada em 22 de agosto de 1976, na Rodovia Presidente Dutra, em Resende, no sul do Rio de Janeiro. A apuração contestou a versão oficial de acidente de trânsito e apontou indícios de atentado, fraude pericial e tentativa de encobrir responsabilidades durante a ditadura militar.
JK viajava em um Opala marfim conduzido por Geraldo Ribeiro quando o carro saiu de sua trajetória e colidiu com uma carreta que seguia no sentido contrário. A explicação sustentada por investigações anteriores indicava que o veículo teria sido atingido por um ônibus da Viação Cometa após uma manobra irregular. O relatório, no entanto, rejeitou essa versão e afirmou que o automóvel não teria sido tocado pelo ônibus antes de invadir a pista oposta.
Um dos pontos centrais da investigação foi o depoimento do motorista do ônibus, Josias Nunes de Oliveira. Ele afirmou que passou décadas sendo apontado como responsável pela morte de Juscelino, embora sempre tivesse negado a colisão. Segundo seu relato, dias depois da tragédia, dois homens o procuraram e ofereceram dinheiro para que assumisse a culpa pelo suposto acidente. Ele recusou a proposta e manteve a versão de que o Opala saiu da pista sem contato prévio com o ônibus.
A Comissão também ouviu passageiros do coletivo e outros testemunhos que reforçaram a dúvida sobre a dinâmica do episódio. Um motorista que trafegava pela rodovia afirmou ter visto o condutor do Opala caído sobre o volante momentos antes da batida contra a carreta. Para os integrantes da investigação, esse relato sustentaria a hipótese de que Geraldo Ribeiro perdeu o controle do carro após ser atingido.
O relatório apontou ainda suspeitas sobre a perícia realizada em 1976. A Comissão afirmou que imagens e documentos técnicos teriam sido manipulados para sustentar a tese de colisão traseira com o ônibus. A apuração também questionou investigações posteriores, incluindo procedimentos feitos na década de 1990, quando houve exumação do corpo de Geraldo Ribeiro. Um fragmento metálico encontrado no crânio do motorista foi interpretado oficialmente como parte de um prego de caixão, explicação rejeitada pelos responsáveis pelo relatório.
A suspeita de assassinato político foi relacionada ao contexto da ditadura militar. Mesmo fora da Presidência havia 15 anos, Juscelino mantinha peso nacional, prestígio político e articulação para voltar ao centro da disputa sucessória. A possibilidade de sua candidatura em uma eleição indireta preocupava setores do regime, que ainda controlava a vida política brasileira por meio de cassações, censura, repressão e vigilância contra opositores.
A morte de JK também ocorreu em um período marcado por outras perdas suspeitas de lideranças civis. Em menos de um ano, morreram Juscelino Kubitschek, o ex-presidente João Goulart e o ex-governador Carlos Lacerda, nomes que haviam se oposto ao regime militar em diferentes momentos. A sequência alimentou suspeitas sobre ações coordenadas para eliminar figuras com capacidade de reorganizar a oposição.
O caso permanece cercado de controvérsias. Investigações oficiais anteriores sustentaram a tese de acidente, enquanto o relatório municipal defendeu que houve “conspiração, complô e atentado político”. A divergência mostra como crimes e violações cometidos durante a ditadura ainda dependem de investigação, acesso a documentos, preservação da memória e responsabilização pública.
Mais do que reabrir uma disputa sobre a causa da morte de JK, a conclusão da Comissão da Verdade expôs a fragilidade das apurações realizadas sob regimes autoritários. Quando o Estado controla a polícia, a perícia, os arquivos e a narrativa oficial, a verdade pode ser adiada por décadas.
A trajetória de Juscelino Kubitschek segue associada à modernização do país, à construção de Brasília e ao projeto desenvolvimentista dos anos 1950. Sua morte, porém, permanece como uma ferida aberta da história republicana brasileira. Entre versões contraditórias e indícios de encobrimento, o episódio reforça a importância do direito à verdade, da memória histórica e da defesa da democracia.
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